Façam o que fizerem quando se encontram - joguem, lutem, amem ou fabriquem automóveis - as pessoas também falam. Falamos com os nossos amigos, colegas, mulheres e maridos, amantes, professores, pais e sogros. Falamos com condutores de autocarros e pessoas totalmente desconhecidas. Falamos frente a frente e pelo telefone. E toda a gente responde falando. A televisão e a rádio intensificam esta torrente de palavras. Assim, raro é o momento das nossas vidas em que, acordados, estamos longe das palavras e mesmo nos nossos sonhos falamos e falam connosco. Até falamos sem termos quem nos responda. Alguns falam alto enquanto dormem. Falamos com animais e às vezes falamos mesmo para nós próprios. Somos os únicos animais que fazemos isto - falar.
A posse da linguagem, mais do que qualquer outro atributo, distingue os seres humanos dos animais. Para compreendermos a nossa humanidade teremos de compreender a linguagem que nos torna humanos. De acordo com a filosofia expressa nos mitos e religiões de muitos povos, é a linguagem que constitui a fonte da vida humana e do poder. Para alguns africanos, um recém-nascido é um kuntu, uma "coisa", não sendo ainda um muntu, uma "pessoa". É apenas ao aprender a linguagem que a criança se transforma num ser humano.* Assim, de acordo com esta tradição, todos nós nos tornamos "humanos" pois todos nós conhecemos pelo menos uma língua.
* Diabate, Massa-Makan. "Oral Tradition and Mali Literature", in The Republic Of Mali
Introdução À Linguagem Humana, Livraria Almedina