Publicada pela primeira vez em 1516 e largamente divulgada nos círculos cultos da Europa quinhentista, a Utopia de Thomas More, escrita originalmente em Latim e destinada a um público simultaneamente cosmopolita e erudito, que constituía o movimento progressista e renovador do seu tempo, o Humanismo, suportou a prova real pela operação do Tempo, e é hoje uma obra de projecção ímpar entre as grandes obras de todos os tempos.
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Aliás, a palavra "utopia" e o adjectivo "utópico" entraram no léxico de quase todas as línguas cultas, sob formas mais ou menos facilmente reconhecíveis, constituindo um caso flagrante de uma palavra criada por um inglês que se tornou, como a obra do seu autor, verdadeiramente universal, utilizada, além do mais, não apenas por um sector de especialistas - embora tenha acepções específicas na história do pensamento político, social e económico - mas também quotidianamente por muitos que não têm necessariamente na ideia a origem da palavra, o seu criador ou o livro que a consagrou.
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É claro que a Utopia é, até certo ponto, uma «obra aberta» - para empregar a expressão que Umberto Eco consagrou; mas convém não perder de vista alguns pressupostos, sem os quais a leitura pode facilmente induzir em erro. A Utopia é, entre outras coisas, um diálogo e directamente influenciado por duas obras de Platão, pelo menos.
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Fernando Mello De Moser
Dilecta Britannia Estudos De Cultura Inglesa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004