Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

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Jan 11

 

 

Foram coro convocador de convulsões do corpo e da consciência. Fúrias devastadoras re-encarnadas numa polifonia em que se misturavam vozes de escritoras, anónimas, avatares de feminismo, sobre o grande tema-tabu da submissão da mulher, e as várias violências a que era sujeita - fossem estas a pressão de mentalidades tacanhas, do espartilho fascista, do país colonial que gostava de donas de casa à espera dos maridos e dos filhos soldados, da violência doméstica ou, ainda, dos calvários da pobreza ou do aborto. Novas Cartas Portuguesas (D. Quixote, 415 pásg., 16,95), de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, livro proibido, revolucionário e fundador do feminismo português, renasce agora uma edição anotada (com 200 entradas, índice, bibliografia, e o prefácio de Maria de Lourdes Pintasilgo, escrito para a re-edição de 1980), com organização da poetisa e docente universitária Ana Luísa Amaral. À altura da sua publicação, pela editora Estúdios Cor, então comandada pela escritora Natália Correia, num abril de 1972 sem cravos revolucionários à vista, a edição foi apreendida pela censura. Pornografia, foi o epíteto e a acusação no processo interposto contra as autoras.

A subversão não passava «só» pela ousadia do discurso no feminino. Nem «apenas» pelo despudorado e desafiador desmistificar das supremacias e mitologias másculas, dentro e fora de portas - ou de camas. As três Marias, então já com nome literário feito, desenganavam expectativas domesticadoras acerca da sua obra. Mas também subvertiam as convenções literárias: Novas Cartas Portuguesas desarrumava gavetas, tricotando tanto os registos da carta, do conto, da poesia, como do romance e do discurso ideológico. As cartas que citavam são as de Soror Mariana Alcoforado (1640-1723), a freira portuguesa que, fechada num convento de Beja, escreveu as cinco ardentes e explícitas Lettres Portugaises ao amante que a abandonou, o oficial francês Noel de Chamilly.

A re-edição tam também um projeto associado: NCP, 40 anos Depois, dirigido por Ana Luísa Amaral. Até 2013, investigar-se-á o percurso e a influência da obra no mundo, e prevêm-se traduções (inglês e italiano) e a publicação de NCP entre Portugal e o Mundo (livro associado a um colóquio) e New Portuguese Letters to the World, International Reception).

 

Texto de Sílvia Souto Cunha  

    

publicado por coquetteintelectual às 18:11

Janeiro 2011
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