Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

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Ago 10

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Observemos, agora, o Shakespeare-poeta. Como tal, há que considerá-lo sob os seguintes aspectos: o sonetista, o poeta narrativo, o lírico das canções dispersas nas peças, o autor das meditações filosóficas - autónomas como poesia - de muitas personagens, e o dramaturgo usando o verso como instrumento de acção dramática. Este último, desenvolvendo o verso branco, adaptou-o às mais subtis variações da expressão e foi avançando desde uma metrificação rígida, muito apoiada em pomposidades marlowianas, até à fluidez absoluta das últimas peças, em que a metrificação às vezes se torna, na sua infinita variabilidade, verso livre moderno(13). O lírico das canções - tantas vezes confiadas aos clowns das comédias, que são das personagens mais graciosas de Shakespeare - serve-se, como atrás referimos, da tradição popular para criar prodígios de ironia, de musicalidade e de audacioso nonsense.

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E é precisamente essa arte da meditação poética que faz a força e a grandeza daqueles trechos que, nas peças, se destacam como poesia em si mesma, e não apenas como elos condutores da acção. Nesses trechos, e em alguns sonetos também, atinge Shakespeare as alturas máximas da expressão poética. A densidade do pensamento, a concatenação impecável do discurso, a originalidade deslumbrante das analogias esclarecedoras de uma intuição complexa, a perfeita identidade do ritmo e da transposição verbal, a nobre firmeza da grandiçloquência magnificadora, tudo se conjuga harmoniosamente para tornar tais trechos exemplos inultrapassáveis da poesia como conhecimento de si mesma e do mundo.

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Os sonetos repartem-se em três grupos: os primeiros 126 referem-se expressamente ao belo jovem, cujos favores o poeta busca, temendo a rivalidade de um outro poeta; os sonetos 127 a 152 são lamentos dirigidos a uma dark lady que o tortura com as suas esquivanças; os dois últimos são apenas elegantes fechos da sequência.

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E Shakespeare, quem era ele?

Um actor, um dramaturgo, um poeta, vivendo numa época em que as circunstâncias, ao declinar o sonho de libertação do Renascimento, colocavam o homem perante as contradições dramáticas da sua liberdade. O mundo era um palco onde tudo seria possível, se a solidão não fosse o preço a pagar pelo papel na peça. Shakespeare pagou, pela sua humanidade, o mais caro preço: a despersonalização completa. Não importa saber quem era Shakespeare, porque ele é as suas criações, ele é a demonstração de que o homem pode, despersonalizando-se, acrescentar ao mundo natural o mundo humano.

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(13) Evolução análoga percorreu Milton, da poesia «metafísica» da sua juventude até à metrificação de Paradise Lost e, sobretudo, Samson Agonistes.  

 

Jorge De Sena

A Literatura Inglesa, Livros Cotovia    

publicado por coquetteintelectual às 17:24

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