Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

09
Ago 10

 

 

Quando chegou a casa e desceu à varanda, a lua adormecia já no horizonte, espalhando sobre o mar a sua luz, essa espécie de azul extraterrestre que, embora celebrado por tantos poetas, continuava sempre a deslumbrá-lo. Acabara de fazer quarenta anos - todos lhe diziam que era uma idade muito difícil, pouco propensa a grandes ilusões, mas a festa correra bem, talvez melhor do que tinha pensado. Bebeu quase às escuras mais um gin, fumou sem pressa um último cigarro e abriu o presente que um amigo de infância lhe mandara três dias antes, para que o recebesse precisamente no seu aniversário: tratava-se de um espelho já antigo, cuja moldura vira melhores dias, começando a escamar-se em finas películas douradas. Respirou fundo, perscrutou com atenção aquele espelho que assinalava os seus quarenta anos e pendorou-o no quarto antes de se deitar. Como sentia ainda alguma febre, tomou um comprimido e estendeu-se na cama, antegozando as poucas horas de serenidade que a madrugada parecia prometer-lhe.

Teve um sono agitado - sabia que sonhara quase toda a noite, mas nada conseguia recordar. Nessa manhã, pouco antes de sair para o trabalho, demorou alguns minutos a observar-se naquele objecto singular: parecia-lhe que mudara qualquer coisa, que alguma parte do seu corpo ou da sua alma sofrera uma metamorfose, mas já estava atrasado e não pensou mais no assunto. Durante esse dia ocorreram-lhe de vez em quando imagens estranhas, cenas de um passado que nunca vivera, alucinações que tentou afastar como se na véspera tivesse experimentado uma droga nova e diferente, cujos efeitos não dominava nem sabia prever, mas lhe davam a sensação de que o seu espírito se desdobrara para dentro ou atravessara uma fronteira, um alçapão da consciência, passando a flutuar numa outra dimensão, numa realidade à qual ninguém - absolutamente mais ninguém - poderia jamais aceder.

Com a passagem dos dias, esse fenómeno - que de início até fora agradável - tornou-se obsessivo e doloroso: cada gesto banal do quotidiano, cada pessoa com quem se cruzava, cada conversa que a vida lhe exigia na sua troca de mensagens - mesmo no visor do telefone portátil -, tudo lhe começou a parecer insuportável, salvo os momentos em que se contemplava naquele espelho. E era aí que permanecia horas seguidas, olhando fixamente para a sua face e analisando-lhe todos os pormenores, como se só reencontrasse a paz à flor daquele rectângulo de vidro, naquela superfície lisa e cintilante, que reflectia as expressões mais vivas do seu ser e lhe devolvia sempre um novo rosto - talvez o que tivera aos vinte anos, cada vez mais igual aos retratos da sua juventude.

Deixou a pouco e pouco de sair de casa. Semanas mais tarde, quando vieram buscá-lo, não opôs resistência: insistiu apenas em levar o espelho e acompanhou tranquilamente os enfermeiros, enquanto balbuciava algumas palavras incompreensíveis.  

 

Fernando Pinto Do Amaral

Área De Serviço E Outras Histórias De Amor, Publicações Dom Quixote, 2006      

publicado por coquetteintelectual às 15:53

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