Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

05
Ago 10

 

 

Naqueles tempos, ainda eu não tinha feito os onze anos. Em Julho, mandaram-me para uma quinta nos arredores de Moscovo, onde vivia um parente nosso chamado T...ov. Encontravam-se, nessa ocasião, reunidos na sua casa uns cinquenta convidados, ou talvez mais... À certa, não posso dizer quantos fossem pois não os contei um por um. A festa estava no seu apogeu e cada qual divertia-se como queria e podia. Quase parecia uma festa que nunca mais acabava por o dono da casa haver jurado dissipar, quanto antes, a sua colossal fortuna - objectivo que felizmente, logrou dentro de pouco, pois, de facto, dissipou até à última polegada das suas herdades.

A cada instante chegavam novos convidados. Moscovo ficava tão próximo que, da quinta, podia ver-se a cidade. Deste modo os convidados cansados não faziam mais que ceder o lugar aos recém-vindos para que a festa se prolongasse interminavelmente. Divertimentos de toda a espécie sucediam-se sem cessar e sem que se chegasse a prever o final da série. Tão depressa eram passeios nas margens do rio ou nas clareiras do bosque. As merendas e as jantaradas ao ar livre estavam sempre na ordem do dia.

Nas noites formosas ceávamos no terraço da senhorial residência, profusamente adornada com flores raras. Com essa plenitude florida aliada à radiante iluminação da mesa, as nossas damas - jovens e atraentes todas elas -, tornavam-se ainda mais bonitas. Com as frescas cores que traziam das excursões diurnas, com os semblantes animados e com os olhos brilhantes e alegres, sentavam-se à mesa e conversavam, alegremente, com uns e com outros, sempre graciosas e discretas. Entre sorrisos, vibravam gargalhadas de cristal.

Bailava-se, tocava-se música, cantava-se. Quando o tempo era mau, fazíamos quadros vivos, jogávamos os jogos de sociedade, e, naturalmente, também representávamos obras de teatro. Além disso, havia muitas vezes conferências, descrições dos acontecimentos mais notáveis, anedotas, etc., etc.

Por entre o tropel de convidados, apareciam alguns de personalidade muito destacada. Também ali não faltavam as invejas e a má-língua, nem as consabidas pequenas calúnias. Sem este lixo social, não pode haver Humanidade.

(...)

Mas eu, naqueles tempos, não tinha mais que onze anos. Faltava-me, portanto, compreensão para essa espécie de gente. Além disso, tinha o pensamento totalmente absorvido por coisas diferentes. Só me ficavam na memória vagas reminiscências do que escutara aqui ou acolá.

(...)

 

Fédor Mikhailovitch Dostoievski

O Pequeno Herói, Publicações Europa-América, 2007      

publicado por coquetteintelectual às 16:46

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