Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

29
Jul 10

 

Chegou mais uma onda de calor. Ou, como se dizia antigamente, estamos no Verão. Agora é torrar, até chegar a intempérie, que é como se chama hoje ao antigo Inverno. Este novo jorgão não tem grande importância para nós, para quem a memória de verões passados é nula. É que os portugueses padecem de uma espécie de Sportinguismo Climático. Da mesma maneira que um sportinguista parte todos os anos com fé absoluta, olvidando o que se passou na época anterior, também o português, no que ao tempo concerne, esquece. Chega o estio e o bafo e os velhinhos a arfarem e os incêndios e Portugal é África. Há mortos, há prejuízos, há chatices mas, mais dia, menos dia, acaba. E toda a gente é "Ufa! Escapámos de boa!" e que se lixe. No ano seguinte, quando a quentura volta, parece que somos apanhados de surpresa. Esquecemo-nos do que sucedeu no ano anterior. Entretanto, não se fez nada para minimizar os estragos que advêm do calor. Portanto, deve ser esquecimento.

Outra teoria possível não diz muito de nós como povo, mas é bem mais divertida: é a hipótese de acharmos que é tudo coincidência. "O quê? Calor de ananases outra vez em Julho? Olha, tu queres ver que... é um grande acaso, pá!" E isto dura há 800 e tal anos.

Em Portugal, reage-se sempre patuscamente. No resto do mundo, o clima começa também a provocar sarilho e gritaria desde que se descobriu que borrasca e canícula são responsabilidades do Homem. Parece-me que, no Ocidente, temos necessidade de ter medo de algo. Só nos últimos cinquenta anos é que se pôs de lado a hipótese de uma guerra nos países da Europa Ocidental. Antes, era disso que se tinha medo. Afastado do espectro da guerra, há que temer outro tipo de destruição causada pelo homem: o clima. Esta destruição é muito pior, porque não só aleija, como também interfere com as férias das pessoas, o que é uma maçada. Quem nunca teve os seus 15 dias em Pipa ou Punta Cana estragados por mau tempo?

É por isso que eu não consigo levar a sério as preocupações ambientais (e por ter um espectacular aparelho de ar condicionado). O histerismo de quem vê, num escaldão apanhado por estupidez, o sinal do holocausto que vai incinerar a humanidade, não ajuda a levar a sério. Serão Cassandras? Talvez. Mas, até por snobismo, nunca falei muito com Cassandras. Nem com Brunos Valderlei. Ou Claúdios Miguel. Aliás, lembro-me de ser miúdo e estarmos num lado da praia, nos toldos, e as Cassandras estarem do outro, com guarda-sóis e frango assado. Ah, a praia! Bons tempos em que as férias de onda de calor duravam 3 meses... E havia a D. Bernardina, das Bolas de Berlim! (Tema sobre o qual não me vou debruçar, por já toda a gente ter falado do seu vendedor-de-bolas-de-berlim-da-meninice-ui!-estou-tão-triste-que-a-ASAE-não-deixe-mais. Não falo de temas explorados por toda a gente, porque é pela comparação que se apercebe melhor a minha insuficiência intelectual).   

 

José Diogo Quintela

Suplemento P2, Público, 5 De Agosto 2007  

publicado por coquetteintelectual às 17:27

Julho 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

31


mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

5 seguidores

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO