Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

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Jul 10

«Se se viajar fora dos destinos turísticos [...] descobre-se que os lugares de desejo, os sítios que nos marcam por dentro e deixam impressões duradouras são tão inacessíveis e misteriosos como sempre foram e, também por isso, se constituem como verdadeiras viagens. Únicas e preciosas.»

 

Os lugares não são todos iguais.

Graças a Deus, já que isso nos permite uma actividade única: viajar.

Viajar, como sabem, não é só percorrer um caminho ou uma distância. Deslocamo-nos todos os dias de um lado para o outro sem considerarmos que estamos de viagem, porque não está presente a condição definidora do viajante: a atenção ao que nos rodeia.

Viajar é, assim, experimentar um percurso ou um destino que nos permita conhecer outras gentes, outros lugares e outras culturas. É uma experiência de contacto e proximidade de algum modo transformadora, já que aumenta a compreensão, a sensibilidade e o respeito pelo que é diferente. Viajar é isto, ou costumava ser.

Recentemente apareceram as viagens fáceis, rápidas e baratas.

Porque são mais fáceis, quase toda a gente, incluindo crianças, velhos e pessoas com deficiências, passaram a atrever-se a fazer a mala e a ir a sítios distantes.

Porque são mais rápidas, os dias de férias que quem trabalha tem chegam para atravessar desertos, participar em safaris, descer cataratas, subir montes, mergulhar nas Caraíbas ou no Índico.

Porque são mais baratas, os que têm poucos meios e para quem, noutros tempos, uma saída do país significava sempre emigração, podem hoje visitar a sua cidade de sonho ou passar uns dias num cenário de filme.

Curiosamente, estas viagens não são designadas por esse nome, mas pelo de destinos turísticos. Não pretendem servir as fantasias de conhecimento e crescimento individual, mas antes a digna indústria do turismo. E a digna indústria do turismo, a continuar como está, ainda mata as viagens.

É que, como talvez já tenham tido a oportunidade de reparar, a indústria do turismo, sólida e eficiente, pensa por nós tudo o que houver para pensar, incluindo a quantidade certa de emoção a usufruir. Partindo do princípio de que o que serve para uns tantos serve para todos os outros, descobre-nos na China hotéis iguaizinhos aos que já vimos na Colômbia ou na Aústria. Faz-nos conhecer refeições que sabem ao mesmo, independentemente da latitude, e introduz-nos em espectáculos e em compras sob o signo desconfortável do «déjà-vu».  

Cúmulo da bizarria, consegue fazer-nos visitar cidades e países sem nos apercebermos da língua local nem vislumbrarmos outros seres além dos turistas como nós. O que é autóctone - pessoas, flora, fauna, alimentos, hábitos, construções, arte - é tão secundarizado ou tão deformado em marketing simplificado que se torna inacessível.

Claro que nem sempre é assim.

Claro que ainda se pode viajar por conta e risco próprios, de olhos e coração abertos. Mas aí, se se tenta furar o esquema montado e viajar fora dos destinos turísticos propostos, descobre-se que a facilidade, a rapidez e a economia não existem.

Descobre-se que os lugares de desejo, os sítios que nos marcam por dentro e deixam impressões duradouras são tão inacessíveis e misteriosos como sempre foram e, também por isso, se constituem como verdadeiras viagens.

Únicas e preciosas.

 

Isabel Leal

Em Teoria, O Amor É Sempre Bom, Abril/Controljornal Editora, 2001  

publicado por coquetteintelectual às 16:18

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