Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

21
Mai 12

 

A minha mãe era a minha melhor amiga. No entanto, aquele terrível episódio no final da guerra também me trouxe alguém especial, alguém que era só meu. O seu nome era Pistou e ninguém conseguia vê-lo, a não ser eu. Tinha mais ou menos a minha idade. Ao contrário de mim, era moreno, com cabelo eriçado, pele cor de azeitona e olhos castanhos, encovados. Ele ouvia a minha voz interior e eu não tinha de explicar porque ele percebia tudo. Para um rapazinho, era muito perspicaz.

A primeira vez que o vi foi à noite. Desde o final da guerra que eu dormia com a minha mãe. Enroscávamo-nos juntos e ela mantinha-me aconchegado e em segurança. É que eu tinha pesadelos... Sonhos terríveis em que acordava a chorar, com a minha mãe a fazer-me festas e a beijar-me, sonolenta. Não podia explicar a natureza dos meus sonhos, por isso deitava-me a pestanejar na escuridão, receando que, se fechasse os olhos, as imagens voltassem e me roubassem dela. Era nessa altura que o Pistou aparecia. Sentava-se na cama e sorria para mim. O seu rosto era tão luminoso e a sua expressão tão calorosa que soube instantaneamente que íamos ser amigos. Pelo seu olhar de compaixão, soube que ele via os meus sonhos, tal como eu, e que compreendia os meus medos. Enquanto a minha mãe dormia, ficava na cama acordado com Pistou, até já não conseguir lutar contra o cansaço e acabar, também eu, por ser vencido pelo sono.

 

Santa Montefíore

A Virgem Cigana, Bertrand Editora, 2008

publicado por coquetteintelectual às 23:00

18
Mai 12

Dizem-nos insistentemente que "isso" aparece como uma força irresistível, como um dinamismo que altera o mundo e irá transformar os nossos empregos, revolucionar as nossas famílias e educar os nossos filhos. Também irá mudar os métodos agrícolas e médicos tradicionais, assim como modificar os genes dos organismos vivos, talvez mesmo o organismo humano. Confrontados com "isso", não há alternativa, não há outra opção senão aceitar o inevitável e celebrar a sua chegada. A partir de agora, "isso" decidirá o nosso futuro.

O que é entendido como "isso" nestas afirmações é, obviamente, a tecnologia. Com o romper do novo milénio, uma deslumbrante panóplia de livros, relatos jornalísticos, anúncios e programas especiais de televisão proclamam com veemência que a tecnologia tem a chave do destino humano. Quando a tecnologia muda, muda também o mundo.

(...)

 

Dilemas Da Civilização Tecnológica, Imprensa De Ciências Sociais, Instituto De Ciências Sociais Da Universidade De Lisboa, 2003

publicado por coquetteintelectual às 21:06

15
Mai 12

 

Vá lá. Hoje consegui chegar a horas a mais uma reunião para voltar a conferir a ausência do Bruno e os pormenores do Fábio. O agente Pereira e a directora da escola já me esperavam sentados à mesa de reuniões, atravancada no meio do meu gabinete. Não é um gabinete pequeno, o meu. Tem uma rasgada sobre a Rua Nova do Almada que o enche de luz. Cobri as paredes com desenhos feitos pelos alunos das escolas. Tenho dezenas e dezenas de cores atrás da minha secretária. E umas boas colunas de som que me ajudam a pensar. Ligo a aparelhagem mal me sento a trabalhar. Desta vez, fiz severa pontaria para não me atrasar, questiono-me: conseguiram adiantar-se ou serão os ponteiros do meu relógio que continuam a trair-me?

- A malta dos bairros não tem emenda. É que começam de pequeninos, doutora - e, enquanto assim o diz, o agente Pereira, magro e franzino, faz uma cara enjoada, como quem acaba de sair de uma traineira depois de ter andado toda a noite em alto mar. 

As mangas do casaco azul pardacento, de tão compridas, a tocarem-lhe os nós dos dedos. O agente deixa solto no ar um imenso bocejo, após o qual leva uma unha à orelha, escarafunchando o seu interior num alívio prazenteiro. Não dve ser muito claro para ele porque raio teve de voltar ao gabinete da vereadora para depor, pois quem teria por função ou inerência de cargo ouvir os outros depor seria ele. Mas o que mais o confunde é a minha presença constante e a minha vontade demolidora de querer a todo o custo saber do rapaz.

Basta-me consultar a papelada em cima da mesa: nada de novo. Pouco mais se tinha avançado no caso. O comandante desinvestira - «ele há épocas com tanto serviço» - e mandara-o a ele fazer as vezes. Em bom rigor, queria lá saber do miúdo para alguma coisa.

 

Maria João Lopo de Carvalho

Adopta-me, Oficina Do Livro, 2007

publicado por coquetteintelectual às 19:43

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