Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

31
Mar 12

 

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

 

Hélia Correia

A Terceira Miséria, Relógio d'Água, 2012

publicado por coquetteintelectual às 16:16

21
Mar 12

 

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

 

Jorge de Sena

Antologia Poética de Jorge de Sena, Guimarães Editores, 2010 

publicado por coquetteintelectual às 21:31

19
Mar 12

IMMANUEL KANT

(1724-1804)

 

de CRÍTICA DA FACULDADE DE JULGAR

 

(Do Livro I da Parte I)

 

1. O JUÍZO DO GOSTO É ESTÉTICO

 

Para distinguir se algo é ou não belo, referimos a representação não por meio do entendimento ao objecto para conhecimento, mas por meio da imaginação (talvez ligada com o entendimento) ao sujeito e ao sentimento de prazer ou desprazer deste. O juízo do gosto não é, portanto, um juízo cognitivo, por conseguinte não é lógico mas estético, por tal se entendendo aquilo cujo fundamento de determinação não pode ser senão subjectivo. Mas toda referência das representações, mesmo a das sensações, pode ser objectiva (e então ela significa o real de uma representação empírica); só não a referência ao sentimento do prazer ou desprazer, pela qual nada se designa no objecto, mas na qual o sujeito sente ele próprio como é afectado pela representação.

Apreender, pelo poder do conhecimento, um edifício regular e conforme ao fim (seja numa espécie de representação nítida e confusa) é algo completamente diferente de ter consciência desta representação com a sensação de satisfação. Aqui a representação é completamente referida ao sujeito, e de facto ao sentimento vital deste, sob o nome de sentimento do prazer ou desprazer; o qual alicerça um poder muito particular de distinção e de ajuizamento que em nada contribui para o conhecimento, mas que apenas mantém a representação dada no sujeito face a todo o poder das representações, de que o espírito se torna consciente no sentimento do seu estado. Dadas representações num juízo podem ser empíricas (por conseguintes estéticas); o juízo, porém, que sobre elas é passado é lógico se aquelas no juízo são referidas apenas ao objecto. Mas, pelo contrário, se as representações dadas, ainda que bem racionais, forem referidas num juízo tão-só ao sujeito (ao seu sentimento), nessa medida elas serão sempre estéticas.

 

Álvaro Pina,

O Belo Como Categoria Estética, Livros Horizonte, 1982 

publicado por coquetteintelectual às 17:57

05
Mar 12

IV

A singularidade da obra é idêntica à sua forma de se instalar no contexto da tradição. Esta tradição, ela própria, é algo de completamente vivo, algo de extraordinariamente mutável. Uma estátua antiga de Vénus, por exemplo, situava-se num contexto tradicional diferente, para os Gregos que a consideravam um objecto de culto, e para os clérigos medievais que viam nela um ídolo nefasto. Mas o que ambos enfrentavam da mesma forma, era a sua singularidade, por outras palavras, a sua aura. O culto foi a expressão original da integração da obra de arte no seu contexto tradicional. Como sabemos, as obras de arte mais antigas surgiram ao serviço de um ritual, primeiro mágico e depois religioso. É, pois, de importância decisiva que a forma de existência desta aura, na obra de arte, nunca se desligue completamente da sua função de ritual. Por outras palavras: o valor singular da obra de arte "autêntica" tem o seu fundamento no ritual em que adquiriu o seu valor de uso original e primeiro. Este, independentemente de como seja transmitido, mantém-se reconhecível, mesmo nas formas mais profanas do culto da beleza, enquanto ritual secularizado.

(...)

 

Walter Benjamin

A Obra De Arte Na Era Da Sua Reprodutibilidade Técnica

 

publicado por coquetteintelectual às 19:08

Março 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
20
22
23
24

25
26
27
28
29
30


subscrever feeds
mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

5 seguidores

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO