Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

21
Jan 12

 

A poesia, diz-se, é uma questão de palavras. E isto é tão verdadeiro quanto dizer-se que as pinturas são uma questão de tinta e os frescos uma questão de água e têmpera. Está tão longe de ser toda a verdade que se torna um pouco idiota se for pronunciado de modo sentencioso.

A poesia é uma questão de palavras. A poesia é o encadear de palavras num múrmurio, numa rima e numa sucessão de cores. A poesia é uma interacção de imagens. A poesia é a sugestão iridescente de uma ideia. A poesia é todas essas coisas e é ainda algo mais. Com todos esses ingredientes teremos qualquer coisa muito semelhante à poesia, qualquer coisa a que poderíamos aplicar a velha designação romântica de "poesy". E esta, como o bricabraque, estará sempre na moda. Mas a poesia é mais do que isso.

A qualidade essencial da poesia é que ela implica um renovado esforço de atenção e "descobre" um mundo novo dentro do mundo conhecido. O homem, os animais e as flores vivem todos no seio de um caos que lhes é estranho, uma vaga em imparável movimento. Ao caos a que nos habituámos, chamamos cosmos. Ao indizível caos interior de que somos compostos, chamamos consciência, mente e até civilização. Mas ele é, em última instância, um caos, iluminado por visões ou destituído delas, tal como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece.

(...)

O que se passa então com os poetas, nesta conjuntura? Revelam o desejo íntimo da humanidade. O que revelam eles? Mostram o desejo do caos e o medo do caos. O desejo do caos é o sopro da sua poesia. O medo do caos manifesta-se na exibição de formas e técnicas. A poesia é feita de palavras, dizem. E então sopram bolhas de som e imagem que cedo rebentam com o sopro do anseio pelo caos que os invade.

(...)

 

D. H. Lawrence

"Preface" To Chariot Of The Sun, By Harry Crosby

in Phoenix: The Posthumous Papers Of D. H. Lawrence

London: Heinemann, 1936

[Tradução de Isabel Fernandes]    

publicado por coquetteintelectual às 12:42

15
Jan 12

 

 

"A degradação da cultura está intimamente ligada ao capitalismo neoliberal"

Urbano Tavares Rodrigues

 

Esteiro - Parabéns pela edição das Obras Completas, em curso de publicação. Queres falar sobre isso?

U.T.R. - A publicação das minhas Obras Completas foi para muitos leitores uma descoberta; jovens que ignoravam e descobriram afinidades com a minha escrita e com os meus ideais. Além disso, os prefácios de Eugénio Lisboa e de Manuel Gusmão são muito ricos e esclarecedores o que contribui para iluminar essas obras antigas que agora surgem renovadas.

Esteiro - Como vês a literatura portuguesa actual e o seu papel na nossa sociedade?

U.T.R. - A literatura portuguesa actual apresenta escritores com preocupações sociais muito fortes, como, por exemplo, José Luís Peixoto no seu último romance Livro, valter hugo mãe, especialmente em O Apocalipse dos Trabalhadores, o Rui Cardoso Martins no seu romance Deixem Passar o Homem Invisível. Mesmo noutros autores como, por exemplo, João Tordo, há textos magníficos de solidariedade social e isso é extensivo a Dulce Maria Cardoso ou a Patrícia Reis. A degradação da cultura em favor dos subprodutos alienantes está intimamente ligada ao capitalismo neoliberal que vive o seu crepúsculo com grande agressividade. É claro que a discussão teórica destes problemas tem sido por vezes debatida quer em artigos da Vértice quer nas tão importantes reuniões de intelectuais progressistas, em Serpa, organizadas pelo Miguel Urbano Rodrigues, com o título genérico "Socialismo ou Barbárie".

Esteiro - Qual é para ti a grande contradição do nosso tempo e como achas que se resolverá?

U.T.R. - A globalização capitalista que estendeu os seus tentáculos até à China, está fortemente ameaçada de um estoiro monumental, o que abriria caminho ao surto de democracias socialistas com um enorme pendor ecológico e características possivelmente diferentes neste ou naquele espaço da Europa e da América Latina. É difícil prever o futuro, mas estas sociedades de homens livres e de tendência igualitária correspondem a um fundo anseio da humanidade.

 

Entrevista de

Leonor Freitas,

em 6 de Janeiro de 2011

 

publicado por coquetteintelectual às 18:14

13
Jan 12

 

 

Com a esperança de governar a casa já elase via a comprar livros e coisas para as paredes. Havia nas papelarias da Baixa umas estapas que cobiçava tanto!

Mas vem um dia... tinha ela ido para o Liceu; um dia em que, de volta a casa, a encontrou virada do direito para o avesso. Que podia ter acontecido? A criada a choramingar, a casa revolvida; e a madrinha?

A rapariga, que era nova e relaça, e costumava deitar pingos de água nas cartas que mandava ao namorado, nem lhe respondeu.

- A madrinha? - perguntava ela, espantada.

- Aquela senhora...

- Qual senhora?

- Aquela, mais a senhora Ana, remexeram aí tudo e, e...

Em resumo tinham posto a casa a saque e raptado a dona Felismina.

A pobre senhora estava de cama, porque continuava doente, mas assim mesmo a tinham arrebatado, como a um fardo precioso.

O que ainda havia de valor em casa também desapareceu: jóias, os restos de um faqueiro de prata, loiça antiga, os cobertores, os lençóis de linho, alguns móveis... Por esquecimento, teriam ficado sujas? deixaram duas colheres de prata, que ainda conserva. Com elas sempre come.

 

Irene Lisboa

Voltar Atrás Para Quê?, Editores Associados, Livros Unibolso

 

publicado por coquetteintelectual às 17:35

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