Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

27
Dez 11

 

 

Acredito que tudo o que podemos oferecer ao Céu é a honestidade humana. Quando chegamos aos portões de S. Pedro, quero eu dizer. Deve ser como sal para reinos sem sal, especiarias para os países sombrios do Norte. Uns poucos gramas na bagagem da alma que oferecemos para tentar entrar. Não sei como é a honestidade celestial. Mas digo isto para me preparar para a minha tarefa.

Pensei em tempos que a beleza era o meu bem mais precioso. Talvez assim tivesse sido no Céu. Mas não o foi nestas paragens terrenas.

Estar só, mas ser tomada por uma alegria imensa, de vez em quando, como julgo que me acontece, é na verdade um bem precioso. Aqui sentada, diante desta mesa marcada e riscada por uma dúzia de gerações de reclusos, pacientes, anjos, o que quer que sejamos, tenho de lhe descrever esta sensação de uma qualquer essência áurea que me invade, bem no sangue. Não é contentamento, mas uma oração tão feroz e perigosa como um rugido de leão.

Conto-lhe isto a si, a si.

Caro leitor. Deus o abençoe, Deus o abençoe.

 

Sebastian Barry

Escritos Secretos, Bertrand Editora, 2009   

publicado por coquetteintelectual às 21:00

25
Dez 11

 

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

 

David Mourão Ferreira

 

publicado por coquetteintelectual às 22:13

10
Dez 11

 

 

Olha para o relógio que está em cima da mesa. Passaram quase duas horas. Ainda se sente vigorosa, embora saiba que no dia seguinte pode ler o que escreveu e achá-lo oco, empolado. O livro que temos na nossa imaginação é sempre melhor do que aquele que conseguimos passar para o papel. Bebe um gole de café frio e resolve ler o que escreveu até então.

Parece-lhe bastante bom, algumas passagens parecem-lhe mesmo muito boas. Tem esperanças excessivas, evidentemente - quer que este seja o seu melhor livro, aquele que corresponda finalmente às suas expectativas. Mas pode um único dia na vida de uma mulher comum transformar-se no suficiente para um romance?

Virgina bate ao de leve nos lábios com o polegar. Clarissa Dalloway morrerá, disso tem certeza, embora nesta fase inicial seja impossível dizer como ou sequer, precisamente, porquê. Está no entanto convencida de que ela porá fim à sua vida. Sim, ela fará isso.

Virginia pousa a caneta. Gostaria de escrever todo o dia, de encher trinta páginas em lugar de três, mas passadas as primeiras horas alguma coisa vacila dentro dela, e receia, se insistir para além dos seus limites, prejudicar todo o projecto. O deixe transviar-se para um reino de incoerência do qual talvez nunca possa regressar. Ao mesmo tempo, detesta passar qualquer das suas horas límpidas a fazer outra coisa que não seja escrever.

(...)

 

Michael Cunningham

As Horas, Gradiva, 2003

publicado por coquetteintelectual às 16:26

08
Dez 11

Assim conversando, entraram o bastante pela floresta dentro para ficarem fora da observação de qualquer viandante casual que seguisse pelo atalho. Aqui se sentaram num monte alto de musgo, que, em qualquer altura do século anterior, havia sido um pinheiro enorme, com as raízes e o tronco na sombra, e a cabeça erguida alto no ar superior. O lugar onde se tinham sentado era um valezinho, com uma pequena encosta, coberta de flores mortas, subindo de cada lado, e um riacho correndo pelo meio, por sobre um leito de folhas caídas e afogadas. As árvores, que se curvavam sobre ele, tinham de vez em quando deixado cair grandes ramos, que se atravessavam na corrente e obrigavam a formar redemoinhos e profundezas escuras em alguns pontos, enquanto, no seu curso mais vivo e rápido, se mostrava um leito de pedrinhas e de areia clara e brilhante. Deixando os olhos seguir o curso do riacho, vieram a luz reflectida da sua água até certa altura pela floresta dentro, mas daí a pouco todo ele se sumia na confusão dos troncos e dos arbustos, interrompidos aqui e ali por um grande rochedo coberto de líquenes cinzentos. Todas essas grandes árvores e esses pedregulhos de granito pareciam empenhados em fazer mistério do curso daquele ribeirinho; receando talvez que, com sua conversa constante, contasse segredos do coração da velha floresta onde corria, ou espelhasse as suas revelações na superfície lisa de uma lagoa minúscula.

Continuamente, em verdade, ao seguir os seu curso, o riacho mantinha uma voz leve, boa, quieta e afogante, porém melancólica, como a voz de uma criança que passasse a infância sem brincar, e não soubesse como ser alegre entre companheiros tristes e sucessos sombrios.

(...)

 

Nathaniel Hawthorne

A Letra Encarnada, Publicações Dom Quixote, Tradução de Fernando Pessoa, 1988  

publicado por coquetteintelectual às 19:01

04
Dez 11

 

Eu tivera uma infância nos confins da piedade, e isto por simples gosto da emoção, pois nada nem ninguém à minha volta a tal me predispunha: os meus pais não praticavam, os meus professores eram da escola laica, não se enxergava, ao redor, nenhuma avozinha de rosário na mão, e, se as minhas tias paternas, que, na época da prosperidade, estavam sempre metidas lá em casa para pedinchar um serviço ou dinheiro do irmão, não perdiam nenhuma missa, nenhuma procissão, o certo é que elas não faziam proselitismo. À saída da escola, apesar da fome canina que me atazanava à hora do lanche, acontecia-me frequentemente subir ao adro da basílica e penetrar sob as abóbadas de sombra e de humidade ainda mais altas que o céu lá fora. Ao domingo, não contente por ter assistido à missa cantada, abandonando a interminável partida de futebol na praça dos Plátanos, onde uma velha late de leite concentrado, embrulhada em trapos, servia de bola aos jogadores renovados pela passagem dos bandos de bairro, ia numa corrida assistir ao ofício das vésperas.

(...)

 

Angelo Rinaldi

Os Dias Acabam Sempre Por Voltar, Bertrand Editora, 1995    

publicado por coquetteintelectual às 14:57

02
Dez 11

 

 

Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                                                        perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.

 

Ana Hatherly

O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003

publicado por coquetteintelectual às 15:38

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