Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

24
Nov 11

 

Antes que a pálida madrugada deixasse ver as mostruosas serpentes de fumo espraiando-se sobre Coketown, iluminaram-se os palácios de fadas. Um barulho de cardas na calçada, um tintilar rápido de sinetas, e todos os elefantes melancolicamente loucos, polidos e oleados para a melancolia diária, recomeçavam a sua tarefa.

(...)

Não receiem, boa gente de espírito inquieto, que a Arte relegue a natureza para o esquecimento. Ponham, seja onde for, a obra de Deus e a obra do homem, lado a lado, e a primeira, mesmo que esteja nas mãos de gente de pouca importância, ganhará em dignidade pela comparação.

Tantas centenas de operários nesta fábrica, tantas centenas de cavalos-vapor de energia. Sabe-se que até ao mais pequeno pormenor, aquilo que a máquina pode fazer; mas todos os calculadores da Dívida Pública são incapazes de me dizer qual a capacidade, para o bem ou para o mal, para o amor ou para o ódio, para o patriotismo ou para o descontentamento, para a decomposição da virtude em vício ou para a inversa, que tem, num dado momento, a alma de qualquer daqueles homens de rostos calmos e acções reguladas. Não há qualquer mistério na máquina e no mais mesquinho dentre eles há um mistério jamais decifrável.

E se guardássemos a matemática para outros objectos materiais e governássemos por diferentes meios essas terríveis quantidades desconhecidas!

(...)

 

Charles Dickens

Tempos Difíceis, Romano Torres, 3.ª Edição

    

publicado por coquetteintelectual às 21:49

02
Nov 11

 

O homem que tinha morrido andou sem destino nesse dia de sol.

E a dada altura, parado ao lado da estrada para ver uma caravana que se dirigia à cidade, disse consigo próprio:

- Como é estranho este mundo dos sentidos, ao mesmo tempo sórdido e puro! Exactamente como eu. Apesar de estar fora dele! É variada a efervescência da vida. Que direito o meu ter querido vê-la sempre com um fervilhar idêntico? Como lamento as pregações que lhes fiz! Muito mais depressa um sermão estala como a lama, ou fontes secam, do que um salmo ou cântico. Enganei-me. Compreendo que me tenham executado por lhes ter feito pregações. Ou antes: se virmos bem as coisas, não conseguiram executar-me porque estou ressuscitado na minha própria solidão e herdei a terra, uma vez que já não ando nela a reinvidicar. Vou estar sozinho no turbilhão de todas as coisas, sobretudo, acima de tudo, vou estar sozinho para sempre. (...) E uma destas noites eu próprio talvez encontre uma mulher que me desperte o corpo ressuscitado sabendo, apesar disso, preservar a minha solidão. Porque o corpo do meu desejo está morto, e em mim não há lugar que possa ser tocado. Mas o que sei disto, afinal? Ao cabo e ao resto, tudo é vida. (...) Tenho de chegar depressa àquela aldeia que ali vejo na colina à minha frente; sinto-me cansado, fraco, e com vontade de fechar os olhos ao que me rodeia.

 

D. H. Lawrence

O Homem Que Morreu, Assírio & Alvim, 2004

publicado por coquetteintelectual às 23:12

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