Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

29
Ago 11

 

 

De certo modo, parecia-me reconhecer o quarto. Enquanto pairava, com o espírito meio dentro e meio fora do meu corpo como o génio da garrafa, pareceu-me ver com os olhos da memória a cama pequena com a colcha de patchwork, a mesa, a banqueta, os quadros na parede. Mose, Henry, a estranha demência que se apossara de mim no cemitério tinham sido relegados ao registo dos sonhos e eu própria era o produto de um sonho nas trevas flutuantes. Lembrava-me vagamente de ter chegado à casa de Crook Street, de ter sido conduzida ao cimo das escadas... umas mãos simpáticas nas minhas, rostos, nomes.

(...)

Lembrava-me dos nomes delas, das vozes, da suave mistura de odores nas peles empoadas enquanto me despiam e me lavavam o rosto com água quente e perfumada... depois havia um vazio total, e agora sentia-me limpa e confortável na cama estreita e branca, vestida com uma camisa de noite de linho com folhos, o cabelo escovado e entraçado para dormir.

(...)

 

Joanne Harris

Valete De Copas E Dama De Espadas, Edições ASA, 2005

 

publicado por coquetteintelectual às 22:00

28
Ago 11

 

 

Eu não estou a sonhar, estou acordada, apesar de as enfermeiras pensarem que estou a dormir. Tal como os famosos cientistas não reparavam numa empregada de limpezas inclinada para varrer a poeira que faziam, estas jovens enfermeiras não se lembram de que uma mulher, apesar de idosa, apesar de estar a morrer, pode ter um ouvido apurado. Por vezes, juntam-se aos pés da minha cama, falando sobre os namorados, os seus casos, as roupas novas que mandarão fazer, com os cortes de seda e de renda que têm estado a acumular. Não vêem que, em tempos, fui como elas, com um cabelo louro que me chegava à cintura, que lavava uma vez por semana e que secava à luz suave e doce do Sol. Por vezes, apetece-me erguer-me desta cama e contar-lhes tudo, os caminhos de bicicleta ladeados de flores e os jovens com os seus olhares, e tudo isso a dar origem aos anos de trabalho árduo, aos meus filhos, a duas guerras temíveis que iam acabar com todas as guerras, e, por fim, a esta cama, onde ouço os seus risos abafados. O mundo gira e volta a girar, e é sempre o mesmo.

(...)

 

Kim Edwards

Um Brilho No Escuro, Civilização Editora, 2008

 

publicado por coquetteintelectual às 22:43

27
Ago 11

 

 

Mesmo depois de o novo membro da família Button ter recebido um corte de cabelo, e de lho terem tingido de negro ralo e artificial, e depois de o terem barbeado até as suas feições brilharem, e de o terem vestido com roupa de rapazito feita à medida por um alfaiate estupefacto, era impossível que o senhor Button se esquecesse que o seu filho era uma triste desculpa de primogénito. Apesar de curvado pela idade, Benjamin Button - pois foi este o nome que lhe puseram, em vez do mais apropriado, mas injusto, Matusalém - media um metro e setenta e cinco centrímetros. A sua roupa era incapaz de dissimular este facto, da mesma forma que nem a depilação nem as sobrancelhas pintadas ocultavam o facto que os olhos que havia debaixo estavam apagados, aquosos e cansados. De facto, assim que a ama que os Button tinham contratado viu o recém-nascido, abandonou a casa num estado de considerável indignação.

Mas o senhor Button persistiu no propósito inamovível. Benjamin era um bebé, e devia ser tratado como um bebé.

(...)

 

F.S. Fitzgerald

O Estranho Caso De Benjamin Button, Impresa Publishing, 2010 

publicado por coquetteintelectual às 15:36

25
Ago 11

 

Não sei o que se passa com as mulheres; querem sempre uma relação diferente da que têm. Quando conhecem alguém não dizem: Que bom gosto, como gosto da maneira que ele tem de andar, a parcimónia com que actua, como pensa ou faz os ovos mexidos, mas sim como desejaria que ele pintasse quadros abstractos, que gostasse mais da farra, ou que não tivesse tantos medos infantis, os desejos incumpridos de subir na carreira. (...) O que se passa com as mulheres de hoje em dia? Apaixonam-se perdidamente por alguém que não aceitam tal como é. Pedem sempre ao outro algo mais ou diferente, algo que não está dentro das possibilidades dele. Algo que não so liga um ao outro, que não tem que ver com o seu temperamento ou os seus gostos. Porque é que as mulheres querem mudar os homens? Porque é que não se apaixonam pelo que eles são, e não pelo ideal do que poderiam vir a ser? Tudo em que se empenham é mudá-los, fazê-los à imagem e semelhança do que elas querem que sejam ou acreditam que eram. Podem passar a vida a tentar transformar o homem com quem estão para que se pareça com esse outro ideal que foi sendo forjado na mente à conta de imaginá-lo.

(...)

 

Paula Izquierdo

A Falta, Ambar, 2006 

publicado por coquetteintelectual às 18:01

24
Ago 11

 

 

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice

Poesia Reunida, Dom Quixote, 2000

publicado por coquetteintelectual às 19:17

20
Ago 11

 

 

São perto de meio milhar de páginas inéditas que representam um verdadeiro achado para qualquer apreciador de literatura sem transigências e, muito especialmente, um bálsamo para os inúmeros devotos de Julio Cortázar, o escritor total a quem devemos livros como De Todos Os Fogos O Fogo, O Jogo Do Mundo e Volta Ao Mundo Em 80 Dias. A agitação com que o meio editorial acolheu a notícia da existência de textos raros e em primeira mão de Cortázar não deu lugar à decepção, como tantas vezes sucede quando são divulgados textos póstumos de escritores célebres. Entre poemas, cartas, entrevistas imaginárias e contos, o leitor encontrará sempre textos que lhe relembram a todo o instante a importância do autor argentino, capaz de, com uma simples frase, colocar em causa verdades ou visões que dávamos como certas. O que vemos em Papéis Inesperados é, antes de mais, um escritor em diferentes estados de desenvolvimento, razão pela qual nem todos os escritores revelam um interesse similar. Mais do que as décadas que separam alguns dos escritos aqui reunidos, importa destacar o modo inquieto e curioso como Cortázar sempre olhou o mundo, mesmo quando o prestígio crescente e o distanciamento físico face à pátria aconselhariam uma atitude mais cautelosa, algo inconcebível em quem desde cedo se propôs «não aceitar as coisas como dadas».

(...)

 

Texto: Sérgio Almeida

 

Julio Cortázar

Papéis Inesperados, Cavalo De Ferro, 2010

publicado por coquetteintelectual às 17:28

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