Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

15
Mai 11

 

 

Envergando um longo vestido leve de cor púrpura, com bainha franjada e em ziguezague, Orla fumava furiosamente, tomava notas abundantes e levantava-se de um salto de vez em quando para rabiscar algum pormenor pertinente numa das inumeras folhas de papel presas nas paredes do gabinete. Providenciando um relato fluido dos acontecimentos da semana anterior, e a esforçar-se ao máximo para os fazer soar cativantes, Millie encontrava-se sentada na chaise-longue e estendia-lhe as canetas de feltro das diversas cores para que Orla, que passava rapidamente por ela, pudesse agarrar na que correspondia a cada personagem.

Bem, um relato fluido, da maioria dos acontecimentos da semana anterior. Millie tinha decidido que Hugh não devia ser incluído em nada daquilo. Contudo, estava a sentir-se um bocadinho culpada, interrogando-se se seria uma atitude traiçoeira.

Afinal, Orla estava a pagar-lhe bastante dinheiro pela versão integral da sua vida e ali estava ela, deixando de fora a pessoa que estava presentemente a perturbá-la.

Não que Hugh estivesse ciente do facto, é claro.

Esperava ela sinceramente.

(...)

De qualquer modo, ela não ia contar a Orla e ponto final. E, decerto, deixar alguém de fora não era enganar. Inventar personagens, inventar acontecimentos, fingir que tinham acontecido coisas quando não tinham - bem, isso é que era enganar. Seria uma atitude realmente enganadora, especialmente quando o que Orla queria era material sobre a vida real.

Por isso não tinha mal, tranquilizou-se Millie.

(...)

 

Jill Mansell

Romance Arriscado, Edições Chá Das Cinco, 2010 

publicado por coquetteintelectual às 12:44

11
Mai 11

 

(...)

Leio de mais. Oiço de mais. Vejo de mais. Estou parado de mais, recebendo mais do que consigo receber.

O céu parece-me demasiado azul. A música é mais triste do que mesmo, os mais tristes, precisaríamos.

Deixem-me sair daqui. A única coisa que sei fazer é sentir. Preciso que me ensinem a enganar-me. Preciso que me ensinem a interromper.

Vivo de mais. Durmo de menos. Acordo para acordar os outros. É como se a luz me acompanhasse. É como se o sol, quando nascesse, viesse propositadamente acordar-me.

Estou sozinho de mais. Nas minhas estrelas não há noite nem amor. Tenho as mãos vazias, viradas para o céu, como se tivessem recebido a lua, como se tivessem ficado encharcadas da tinta da escuridão.

Esta música afastou-me da tua respiração. O teu cabelo levanta e sossega, sossega e levanta, espalhado pelo lençol, como se fosse distribuído pelos meus dedos, que sobem por debaixo dos cobertores, para te conhecer e tocar.

 

Miguel Esteves Cardoso

O Amor É Fodido, Assírio & Alvim, 2001 

publicado por coquetteintelectual às 21:15

01
Mai 11

 

 

Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias
Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo
Adorna-te muito mais do que os anéis

Dá-me um pouco do teu corpo como herança
Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho —
O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus
Dá-me o pão do céu porque morro
Faminto, morro à míngua do alto

Tenho saudades dos caminhos quando me deixas
Em casa. Padeço tanto
Penso tanto
Canto tão alto quando calculo os corpos celestes

Ó infinita ó infinita mãe

 

Daniel Faria

Dos Líquidos, Quasi Edi, 2003

publicado por coquetteintelectual às 12:00

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