Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

19
Fev 11

 

Com medo de o perder nomeio o mundo,

Seus quantos e qualidades, seus objectos,

E assim durmo sonoro no profundo

Poço de astros anónimos e quietos.

 

Nomeei as coisas e fiquei contente:

Prendi a frase ao texto do universo.

Quem escuta ao meu peito ainda lá sente,

Em cada pausa e pulsação, um verso.

 

Vitorino Nemésio

Quinze Poetas Portugueses Do Séc. XX, Assírio & Alvim, 2004  

publicado por coquetteintelectual às 12:34

05
Fev 11

 

Ler os contos de Katherine Mansfield é caminhar entre crianças asfixiadas pela educação tradicional, adolescentes de sonhos impossíveis, soldados de fardas ridículas, mulheres que esboçam gestos de revolta e velhos nos confins do tempo. É sobre estes «seres sem história» que Katherine Mansfield escreve, relevando o drama oculto na aparência dos seus gestos usuais. E todo o seu condão está nessa capacidade de riscar fósforos na escuridão dos dias, iluminando recantos obscuros, com ironia e emoção.

Nascida em 1888, amiga de Virginia Woolf e D. H. Lawrence, contemporânea de um James Joyce que admirava e leitora atenta de Tchékhov, que morreu quando ela começava a escrever, Katherine Mansfield participou na renovação da difícil arte do conto, ajudando-o a libertar-se da moral victoriana e do clássico enredo e dissolvendo a rigidez das perspectivas em sensações e recordações em subtil relação com a realidade exterior.

Esta renovação foi apoiada numa técnica caracterizada pela economia de meios, as bruscas mudanças dramáticas, a capacidade de criar situações com apenas algumas linhas e um poder de observação que lhe permitia captar os mais variados modos de expressão.

(...)

O encanto da maior parte das narrativas de Katherine Mansfield não está apenas em nos desenvolver um mundo passado, mas em nos revelar com subtileza muitos sentimentos que se mantêm sob a aparência alterada das coisas.

Francisco Vale

 

Contos De Katherine Mansfield, Relógio D'Água, 2002

        

publicado por coquetteintelectual às 15:55

01
Fev 11

 

Rei Édipo de Sófocles é, sem dúvida, a peça mais célebre do teatro antigo - mais em função das interpretações discutíveis que, no século XX, se fizeram a seu próposito, do que dos méritos indiscutíveis da obra enquanto teatro ou literatura. Freud é, efectivamente, o nome a que se associa, hoje o herói tebano, facto que é tanto mais insólito e absurdo quanto mais reflectirmos sobre a peça de Sófocles, a qual leva à conclusão inelutável (e, para muitos, surpreendente) de que Édipo, de facto, não sofria do complexo que lhe apropriou indevidamente o nome.

É que toda a questão do Rei Édipo de Sófocles reside no facto de Édipo ter cometido os crimes que o celebrizaram sem ter consciência de que os estava a cometer. De resto, uma leitura atenta da peça levar-nos-ia a postular, antes, a existência de um "complexo de Jocasta", pois é ela que profere os famosos versos que provocaram a ideia luminosa de Freud, cuja essência remete para a noção de que muitos homens ter-se-iam unido às mães em sonho, coisa perfeitamente natural... para Jocasta.

É ela que percebe mais cedo que o filho a verdadeira natureza do seu parentesco, que está longe de se circunscrever à relação normal entre marido e mulher. O problema de Jocasta não é tanto o de saber que está casada com o filho; é muito mais o de impedir que Édipo descubra essa realidade aberrante, tentando desse modo evitar que a desgraça se abata totalmente sobre a família real de Tebas.

(...)

 

Frederico Lourenço

Grécia Revisitada, Livros Cotovia, 2004     

publicado por coquetteintelectual às 17:00

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