Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

30
Jan 10

 

O que interessa mais que tudo é ensinar a ler. Ler sem que passe despercebido o mais importante - e às vezes é pormenor que parece uma coisinha de nada. Ler, despindo cada palavra, cada frase, auscultando cada entoação de voz para perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do que se lê. É também de interesse primário levar os rapazes a amar as palavras - mostrar como são engraçadas, outras como são doces. Ora para amar as palavras e para, a seguir, amar a leitura, é aconselhável, como diria La Palice, não fazer desamar as palavras, nem desamar a leitura. Que amor terá uma criança por uma palavra que a fez suar, levar descomposturas, levar reguadas?

 

Sebastião Da Gama

Diário, Ática 

publicado por coquetteintelectual às 19:58

28
Jan 10

 

Primeiro, fui ver ao dicionário. Tinha que olhar para dentro do medo, descobrir como é que ele funcionava. Quando se tem um brinquedo e se quer ver como ele funciona, há sempre a tentação de o abrir e mexer lá dentro, mesmo sabendo que se pode estragar (para além do raspanete que se calhar vamos ouvir). Abrir o dicionário era a mesma coisa: tentar perceber o funcionamento da máquina do medo.

E lá estava, escrito, assim:

"Medo: sentimento desagradável que excita em nós aquilo que parece perigoso, ameaçador, sobrenatural."

Não gostei, se calhar porque não percebi. "Excita em nós aquilo que parece perigoso"? Que raio de definição era essa? A máquina continuava a funcionar, sem que eu lhe percebesse o funcionamento.

Depois fui aos sinónimos:

"Medo: susto, receio, horror, pavor, cagaço, cobardia, desconfiança, temor, pânico,  assombramento..."

A lista era enorme e já me deixava mais satisfeito. Cada palavra daquelas, mesmo que não me explicasse nada, trazia ao menos recordações, sensações fortes. Eu lembrava-me de coisas passadas e por vezes até me arrepiava, como se lá estivesse de novo. 

Portanto, o medo é uma sensação forte: fica marcada no corpo e na memória. Aconteceu qualquer coisa, e, de cada vez que a recordo, sinto uma tremura pela espinha acima! Isso é medo. Não se consegue muito bem explicar, aliás é por isso que se diz que ele é mais forte do que nós.

Vou dar-lhes um exemplo...

 

Sérgio Godinho

O Pequeno Livro Dos Medos, Assírio & Alvim 

publicado por coquetteintelectual às 19:19

25
Jan 10

 

Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

 

José De Almada Negreiros

«A Invenção Do Dia Claro», Líricas Portuguesas, Portugália Editora   

publicado por coquetteintelectual às 19:12

23
Jan 10

 

Erva-do-diabo é o nome de uma planta, uma erva daninha comum que partilha o poder de mitigar a dor com a literatura, e a má fama com as mulheres, porque de uma e outras se tem dito ao longo dos séculos que são venenosas e de má raça, muito inclinadas às más paixões. 

Erva-do-diabo é também o título deste romance, que tenta devolver à vida privada o protagonismo que lhe corresponde, tomando como pretexto a figura de Descartes. Três mulheres são testemunhas privilegiadas das andanças do grande filósofo: a rainha Cristina da Suécia, que o hospedou no seu castelo poucos meses antes de morrer, a sua amante holandesa Hélène Jans e Inês Andrade, uma estudante actual empenhada em revelar o perfil mais íntimo de Descartes, um homem que não soube amar e viveu nesse triste vazio cavado pela paixão mal vivida.

Erva-do-diabo é feito de amor e sabedoria, de humor e ironia, um livro onde se misturam cartas de há trezentos anos com e-mails do século XXI, esconjuros para atrair amantes indecisos e esboços de poemas, fragmentos de ensaios e histórias tão antigas e belas como lençóis de linho. O talento de Teresa Moure e a sua paixão pelas palavras consiste em amassar estes ingredientes até conseguir um magnífico romance, porque as palavras, quando são bem escolhidas, conseguem acalmar a dor com analgésicos e prolongar o prazer como afrodisíacos.

 

Teresa Moure

Erva-do-diabo, Difel, 2007          

publicado por coquetteintelectual às 14:44

18
Jan 10

 

 

Marta Gautier é psicóloga.

As relações parentais são objecto central do seu trabalho e observação. No livro Não há Famílias Perfeitas - mulheres, mães e desabafos, partilha um pouco da sua experiência clínica. Marcelo Rebelo de Sousa prefacia e parte de uma interrogação: "O que é ser Mulher e Mãe em Portugal, em 2009?"

(...) E esclarece desde logo: tratando-se de família, a normalidade não existe!

 

"Vistas de perto, todas as famílias são muito esquisitas", lê-se no seu livro. Quer dizer que a família é sempre uma realidade disfuncional?

Muitas vezes, ao observarmos muitas famílias, pensamos serem mais felizes ou mais normais que a nossa. Mas se por acaso pudéssemos lá viver escondidos durante 15 dias íamos ver que todas as famílias têm as suas disfunções. Aliás, às vezes, quanto mais disfarçado e silencioso é o sofrimento, maiores os danos.

Uma mulher, ao ver o seu filho, não sentiu o que esperava. Confessou-o com uma enorme culpabilidade.

Muitas vezes a mulher tem a sensação de estar à frente de um desconhecido cujo amor não aparece logo inteiro. O amor pelos filhos nem sempre é pacífico. 

Nos testemunhos do livro, mães descrevem não gostar da gravidez; não querer dar de mamar; estar farta dos filhos, do marido, de sentirem que já não são elas próprias. E também há homens a queixarem-se!

Porque é que tantos casamentos se estragam com os filhos?

Um filho só promove comunicação se ela já existir antes do seu nascimento. Algumas vezes, um filho torna-se o álibi perfeito para que o casal não tenha de se relacionar entre si nem resolver os seus problemas. A problemática do mau comportamento ou outros sintomas pode, por exemplo, vir daí. Desde cedo a criança percebe que tem a função de unir os pais dando-lhes o que fazer e assim distraindo-os um do outro.

As pessoas tentam "cumprir um velho sonho" quando constituem a sua família?

Ao formar uma família, cada pessoa, além do seu passado, traz uma ideia de família ideal. Depois, na sua forma de agir, umas vezes fá-lo em oposição aos seus modelos de referência, outras, por imitação. A somar a isto ainda vem "o outro" com todo o seu passado, família ideal, acções e intenções. Agora digam-me, depois disto, como pode ser fácil viver em família?!

"A minha vida resumia-se a verificar se tudo se mantinha na ordem que eu tinha predeterminado." 

Como é que as pessoas podem libertar-se da tirania que impõem a elas próprias?

Graças a Deus, na maior parte dos casos, a "cabeça" educa-se. A ansiedade do controlo pode tornar-se numa espiral da qual parece que ficamos reféns. Mas com vontade e técnica, podemos forçar esses pensamentos a desistir.

 

Anabela Mota Ribeiro

Máxima, Fevereiro de 2010            

publicado por coquetteintelectual às 19:25

11
Jan 10

 

A leitura das obras literárias obriga-nos a um exercício da felicidade e do respeito na liberdade de interpretação. Há uma perigosa heresia crítica, típica dos nossos dias, pela qual de uma obra literária se pode fazer o que se quiser, lendo nela o que nos sugerirem os nossos impulsos mais incontroláveis. Não é verdade. As obras literárias convidam-nos à liberdade de interpretação porque nos propõem um discurso a partir dos inúmeros planos de leitura e nos colocam perante as ambiguidades da linguagem e da vida. Mas para podermos avançar neste jogo, pelo qual cada geração lê as obras literárias de maneira diferente, temos de ser movidos por um profundo respeito em relação à que denominei algures por intenção do texto.

 

Umberto Eco

"Sobre Algumas Funções Da Literatura", Sobre Literatura, Difel, 2003

publicado por coquetteintelectual às 18:56

10
Jan 10

 

 

Ela sentou-se na cadeira e disse

- Tive um sonho, esta noite. Um sonho só com homens. O primeiro era o meu pai, que estava a discutir com a minha mãe. Parecia outra vez a minha infância. A minha mãe pedia ao meu pai para não sair de casa e para ficar e ele ameaçava que se ia emboar. Ela agarrava-o e ele despegava-se. Ela implorava e ele negava-se. Depois eu avançava para ele e dizia-lhe para se decidir, ali e já. Ou ia, e nunca mais voltava, ou ficava e nunca mais saía. Ele olhava para mim com medo e eu controlava-o através desse medo. Ficou sem saber o que fazer, durante muito tempo, e depois fui eu que o obriguei a sair. Expulsei-o de casa. O que a minha mãe nunca teve coragem de fazer. Ele foi. Não o deixei olhar para trás.

A seguir, sem se mexer na cadeira, imobilizada pelas palavras, ela continuou

- Depois era o meu marido, ex-marido, para dizer a verdade. Ele não sabia escolher, havia duas mulheres, eu e a outra. Por um lado ele queria-me a mim, porque era mulher dele e ele tinha medo das consequências, de perder os filhos, de sair de casa. Por outro lado, queria a outra, porque estava apaixonado embora desconfiasse daquela paixão. Passava as noites em claro, a tentar decidir. Isto na vida, na minha vida. No meu sonho desta noite, era eu que decidia por ele, era eu que mandava. Pu-lo fora, violentamente. Roupa pela janela, malas a voar, porta escancarada. E tudo isto sem um grito, uma lágrima, um gemido, um pedido. Tudo em silêncio, a frio. Exactamente o contrário do que aconteceu há anos, quando ele me quis deixar. Quando chorei, gemi, usei os filhos contra ele a meu favor. Ficámos juntos mais uns anos, até ao divórcio. E tantas vezes desejei que ele se tivesse ido embora. Tinha sido melhor. Desta vez, no sonho, senti-me bem, como não me sentia há anos, desde a morte do meu pai. Eu detestava o meu pai.

Agora ela mexeu uma mão, acariciou a face, puxou uns fios de cabelo. Suspirou de leve

- E no sonho, a seguir, era o meu filho. O meu único rapaz rapaz. O meu preferido, nunca gostei de ter raparigas. O mundo não gosta de raparigas. No sonho, o meu filho regressava a casa. Era como se nunca tivesse saído. No dia em que ele morreu, lembro-me de que andava inquieta desde manhã, ia à janela, as coisas caíam-me das mãos. Instinto de mãe. Quando eram onze da noite e ele ainda não tinha regressado soube logo que qualquer coisa tinha acontecido. Quando o telefone tocou, antes de me falarem no desastre e no carro desfeito eu já sabia a verdade. Sabia que ele tinha saído de manhã com os amigos e que nunca mais voltaria. Desde esse dia tenho estado como morta, você sabe bem, como morta. Nunca perdoei ao meu marido, quis o divórcio, mas ele não teve culpa, ninguém teve culpa. O horror não tem culpados.

Ela sorriu, pela primeira vez em vinte anos

- Você conhece estas histórias, você sabe bem como elas nunca tinham fim. Até esta noite. Esta noite tive um sonho e senti-me bem ao acordar. Expulsei quem devia, fiquei com o meu filho. Vi-o como ele seria hoje, com 38 anos, e não como era quando morreu, um rapaz. Vi um homem, bonito. Como ele seria. Acha que preciso de cá voltar? Acho que nunca mais cá volto.

Ela levantou-se da cadeira, devagarinho. E saiu do consultório.

 

Clara Ferreira Alves

Mala De Senhora E Outras Histórias, Publicações Dom Quixote, 2009

publicado por coquetteintelectual às 18:13

09
Jan 10

 

 

«O silêncio dos teus olhos... Os teus olhos, que eu tanto admirava, não falavam comigo….
– “Sabes... Tenho saudades daqueles tempos em que as palavras não precisavam de ensaio... Tanto tempo perdido em guerras que agora não importam absolutamente nada... Eu tinha tanta coisa para te dizer... Tu não me ouvias... Eu não te queria ouvir porque dizias tanta coisa da boca para fora... Quando falavas daquele modo abrias feridas incuráveis. Nenhum de nós tinha razão... Agora apenas oiço o barulho destas malditas máquinas que te mantêm com vida... Agora apenas consigo ouvir o som do teu silêncio...
Gostaria de ouvir a tua voz, nem que fosse para... Somente gostaria de voltar a ouvir a tua voz!”
Sentei-me ao teu lado e agarrei a tua mão à espera de uma resposta...»

 

Hugo Girão

O Silêncio Dos Teus Olhos, Fronteira Do Caos, 2009

publicado por coquetteintelectual às 21:58

05
Jan 10

 

Os saltos qualitativos e quantitativos da Internet, o telefone móvel e as modificações profundas na televisão são os fenómenos mais visíveis no mundo da comunicação.

No que respeita à Net, há que destacar, antes do mais, o correio electrónico. 1500 milhões de pessoas recorrem aos e-mails para fechar negócios, namorar, mandar recados, fazer encomendas, lançar produtos e serviços, comprar bilhetes para espectáculos, corresponder-se com amigos e familiares, louvar, insultar, mentir, alterar ou deturpar textos e imagens, dar notícias verdadeiras e executar centenas de outras funções.

A Internet não se fica por aqui. Permite criar e aceder a portais, sites, sub-sites, blogues, redes sociais, chats, foros, clubes, associações, emitir televisão, falar ao telefone (Skype) carregar e descarregar fotografias, vídeos, filmes, música, rádio e podcasts, proceder a investigações aprofundadas sobre todos os assuntos, visitar museus, monumentos, restaurantes, hotéis, jogar jogos de todas as espécies. As redes sociais, que, num sentido mais amplo, abarcam os YouTube, os MySpace ou os Messengers, e as próprias redes particulares, P2P, para além, portanto, dos Facebook, Hi5, Linkedin ou Twitter, são a manifestação mais recente da necessidade individual de falar de si próprio e lutar contra a solidão urbana.

O telefone móvel - 4000 milhões de aparelhos - concede-nos a possibilidade de comunicar oralmente, por escrito ou através do envio de imagens paradas ou em movimento com qualquer pessoa em qualquer parte do planeta. Dá-nos acesso directo à Net, à música, à televisão, a serviços de informação ou de entretenimento. Tudo isto com plena mobilidade, de casa, da rua, do escritório, do campo ou da praia e com melhorias e aplicações crescentes (iPhone e seus concorrentes). O telefone móvel alterou as relações sociais (rara é a reunião, seja trabalho, de formação ou entretenimento, onde não haja pessoas agarradas ao seu aparelho) e contribuiu para a emancipação da mulher (liberdade de contactar e ser contactada, se e quando quiser, e possibilidade de pagar a sua conta mensal sem qualquer controlo) e para a autonomização dos mais jovens.

Na televisão, que também beneficia da mobilidade, em consequência das novas capacidades de distribuição do sinal - cabo, satélite, e, de novo, Internet - assiste-se a uma quase infindável fragmentação e consequente especialização dos canais disponíveis, o que altera os esquemas e sistemas de produção. Além disso e de uma considerável melhoria da imagem - Alta Definição e, em breve, 3D (três dimensões) - e da sua recepção - plasmas, LCD -, o directo tornou-se cada vez mais fácil. (...)

ESTAS TRÊS ALTERAÇÕES radicais entranharam-se de tal maneira no tecido social que nem damos por elas, fazem parte do nosso dia-a-dia. (...)

Para além dos avanços na interactividade (o destinatário é parte integrante e actuante da mensagem), detectam-se modalidades mais intervenientes de utilização da Net, do telefone móvel e da própria televisão: o recurso incessante e por vezes abusivo às mais diversas bases de dados, a comunicação viral, a publicidade contextualizada, o cidadão repórter, o voto electrónico, a convocação de manifestações por SMS (recorde-se, por exemplo, que foi por esta via que Zapatero foi eleito da primeira vez). Acrescente-se aqui, noutro plano, a PlayStation, que aproxima filhos e pais e cria cultos ou simples modas de âmbito planetário.

A REVOLUÇÃO EM CURSO na comunicação/informação/entretenimento tem, obviamente, muitos efeitos positivos. Contribui decisivamente para a globalização, diminui o fosso entre info-ricos, leva e traz notícias que de outro modo permaneceriam abafadas (exemplo recente: as manifestações de Teerão), elimina barreiras geográficas e temporais, ajuda os países em desenvolvimento, em áreas fundamentais, como a saúde (as operações à distância), a educação (o e-learning) e até o trabalho (as videoconferências). A sociedade organiza-se cada vez menos em pirâmide e cada vez mais em rede, por vezes com características tribais (dos coleccionadores de Swatch aos admiradores de Madonna).

(...)

Francisco Pinto Balsemão, Presidente do Grupe Impresa

 

Revista Única, Expresso, #1940, 31 de Dezembro de 2009         

publicado por coquetteintelectual às 19:12

04
Jan 10

 

 

Se este livro tivesse sido publicado há alguns anos, e lido em conformidade, teríamos poupado dores de cabeça a críticos honestos e conscienciosos que passaram noites em branco lendo livros que odiavam. Pierre Bayard começa por identificar o que considera serem «três constrangimentos» sobre a leitura e a não-leitura: primeiro, o da obrigação de ler; segundo, o da obrigação de ler tudo; terceiro, o da ideia de que é preciso ler um livro para se poder falar sobre ele. Ou seja, retomando um dos «direitos do leitor» (de Siniac) é, precisamente, o de não ler, Bayard passa ao ataque: «Apesar de eu mesmo ter lido pouco, conheço suficientemente certos livros - estou a pensar também em Proust - para poder avaliar, nas conversas com os meus colegas, se dizem ou não a verdade quando falam deles, e dou-me conta de que isso raramente acontece.»

Acontece que, sob esta mancha de ironia, que ocupa as primeiras páginas do livro, o tema é o carácter flutuante da leitura (veja-se o capítulo sobre «Impor as suas ideias»: «Onde Balzac prova que será tanto mais fácil impor o seu ponto de vista sobre um livro quanto este não seja um objecto fixo, e que mesmo selá-lo com um fio manchado de tinta não será suficiente para impedir o seu movimento.») E, com ela, a natureza da pressão social e escolar que paira sobre o aprendiz de leitor. Convite à rebeldia? Nem por isso. O problema central, para Bayard, é o do discurso sobre os livros e a sua interminável rede de hierarquias - daí que, às vezes, devemos tomá-lo a sério e acreditar que é necessário inventar uma leitura que não está fixada ainda pelo cânone. E aprender a lição que tira do bibliotecário de O Homem sem Qualidades, de Musil: aquele que mete o nariz nos livros está perdido para a leitura. De resto, para que serve um livro? Para falarmos dele.

Francisco José Viegas

 

Ler, Número 69, Maio de 2008, Círculo De Leitores     

publicado por coquetteintelectual às 21:31

02
Jan 10

 

Pessoa. Personalidade. Máscara. No teatro grego o disfarce construía as personagens. A cada «persona» correspondia uma máscara. Expressoões inalteráveis que definiam destinos quase sempre trágicos. Uma capa que cobre a face. Um destino que é imposto pela expressão da segunda cara. Esta é uma realidade que desceu dos palcos gregos e entrou em cena no teatro da vida real. Todos os dias. Em todo o mundo. A história acabou por ditar o abandono das máscaras nos bastidores. Atravessaram a barreira do imaginário. Tornaram-se reais. (...)

Aquele disfarce que é só nosso e não partilhamos. E ainda mais «personas». Impostas. Imagens que a sociedade entende como o conceito correcto. Moldam-se as expressões. Desprezam-se diferenças. Tal como na antiguidade das arenas, em Atenas, definem-se destinos e impõem-se amarras.

(...)

Cláudia Coelho 

 

Happy Woman, Número 34, Dezembro de 2008, Baleska Press 

publicado por coquetteintelectual às 19:09

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