Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

29
Dez 09

 

a menina despertou com a enorme ramela a picar no olho esquerdo, levantou da esteira com o corpo quente dos suores da noite e viu a galinha entrar em casa - velho hábito - para ir beber água na borda de uma bacia onde a roupa estava de molho desde cedo,

a menina empurrou a porta, a porta cedeu, às vezes é só assim, a mesma abertura que indica o caminho do amor e da vida, propicia a gulocide da morte, cruzou a porta - a menina, saiu,

a galinha cessou a bebericagem mansa e veio ver, andando; olhos em busca de uma comida errante que nunca havia, a menina - três anos - cruzou o quintal pequeno, não mais olhou a galinha, ouviu a vida da rua, a gente humana toda num fulgor de buzinas, fumos e os pés pisando com força a lama, a chuva traz recordações húmidas, soube-lhe bem a lama nos pés recém-vindos de um sonho bom, não parou, a estrada tão próxima e o impulso só - empurrando o corpo tão infantil para o circo onde, ao sol, as auras dos transeuntes bailavam em «rebita» colada com os corpos,

a galinha, antiga atravessadora de perigosas estradas parou o movimento das patas, o pescoço irrequieto seguiu dançando leste-oeste, o olhar também, e quem viu mais foi ela, a galinha, depois da lama, o asfalto sujo sustentava o trânsito que trouxe um carro como os outros,

a menina circulava, como as outras, em direcção ao outro lado da rua, a água - lá dentro - repousava quieta na bacia, o pai saíra cedo para trabalhar no aeroporto - é gente que está cá dentro e espera gente que vem de tão fora, e a mãe cedo saíra, antigo hábito de os dois confiarem num sono de manhã prolongada para, junto do meio-dia, a amiga chegar, acordar a menina, limpar a ramela, dar de comer, controlar as brincadeiras dela lá fora mas dentro do quintal, as brincadeiras da menina com a galinha, correrias, tropeços de choro e contentamento, até à chegada - fim do dia - dos pais, a mãe primeiro - sorriso e pão, o pai depois - sorriso só, tudo, tantas vezes, três anos antes do dia em que a amiga não veio e a bacia quieta de um sabão flutuante repousava no interior da casa, e a galinha viu - a estrada e o carro, a galinha é que viu!, regressando entristecida ao quintal, recolhendo-se num canto escuro, perdendo o desejo de debicar após ter olhado a estrada e o carro, o carro e a menina, a menina e os olhos fechados numa travessia última até perto - perto demais - do outro lado da vida,

a menina.

 

Ondjaki

Histórias Em Língua Portuguesa, Colecção Literatura Universal Número 48, Ambar, 2007   

publicado por coquetteintelectual às 19:22

27
Dez 09

 

Todos os locais têm uma alma própria que vai para além do que objectivamente podemos dizer ou fazer deles. E essa alma é sempre uma construção feita por mão de artista que observa, elabora e recria.

(...)

Não teríamos a mesma São Petersburgo sem a imaginação frenética de Dostoievski. Teríamos decerto menos de Nova Iorque sem a prosa de John dos Passos no seu Manhattan Transfer. E Paris não seria bem Paris sem Balzac ou Victor Hugo. Quer dizer Londres então? Conseguiríamos imaginá-la sem a pena e as personagens de Dickens? De onde vem a imagem da cidade misteriosa e envolta em nevoeiro - o célebre smog - senão da imaginação de Conan Doyle e desse extraordinário cavalheiro que se «chamou» Sherlock Holmes? 

(...)

José Jaime Costa

 

Volta Ao Mundo, Número 182, Dezembro de 2009, Global Notícias, Publicações, S.A.  

publicado por coquetteintelectual às 22:44

26
Dez 09

 

Giacomo Casanova nasceu a 2 de Abril de 1725 em Veneza, Itália, sob o signo de Carneiro. Escritor de profissão e aventureiro por vocação, sabia como ganhar a admiração e a confiança das pessoas. Independentemente e com carácter, viajou por inúmeros países da Europa na sua juventude.

Os seus problemas posteriores com a justiça marcaram as contínuas mudanças de residência. Amante de risco e do jogo, guardava ciosamente a sua liberdade e independência, características próprias do seu signo. Giacomo procurou sempre rodear-se de pessoas muito influentes. Conquistador por natureza, a sua habilidade para enfeitiçar as mulheres e a fama de bom amante chegou até hoje. De facto, o seu apelido converteu-se num adjectivo que designa homem conhecido pelas aventuras amorosas.

 

Guia Astrológico 2010, Número 13, Hachette Filipacchi

publicado por coquetteintelectual às 18:35

25
Dez 09

 

"Boas Festas para todos em qualquer altura do ano!" repicam, cada qual a seu modo e como se fossem sinos, os contos de Charles Dickens (1812-1870) (...). O timbre não terá sempre a mesma cadência, mas isso nada mais significa, afinal, do que as profundas diferenças de sinceridade próprias do carácter humano.

Talvez como nenhum outro escritor, Dickens soube transmitir aquela sensação indefinível, mas arrebatadora , que envolve o mundo cristão na quadra festiva do Natal; as histórias que o tema lhe inspirou periodicamente - e que reuniu em vários volumes entre 1843 e 1848 - revelam bem não só o grande amigo da infância que ele foi, como ainda a sua tese evangélica de amor activo pelo próximo, ou seja que todos os humildes e sofredores deveriam ter o direito de alcançar o mínimo de conforto físico e, até, moral.

Impregnados de influências da tradição cristã e pagã, alguns desses contos de Natal surgem repletos de episódios satíricos, de cenas familiares vibrantes e, sobretudo, de um caloroso ambiente de festa; todavia, nem sempre a festa neles está presente porquanto, para Dickens, o que interessa não é a data do calendário - aliás, "de todos os dias do ano o melhor é a véspera de Natal" - mas o espírito desse mesmo Natal que pode, e deve, manifestar-se assim que alguém se encontre numa situação difícil. Por isso, algumas vezes, os contos deixam no leitor um gosto agridoce inesperado...

O talento de Dickens, a sua ternura e bondade, o melhor de si mesmo, reflectem-se, numa síntese feliz, em muitas personagens dos seus contos de Natal. (...)

Esta noção exacta de equilíbrio - já que a realidade nunca é tão serena como um presépio, mas pode, ao menos, tentar sê-lo - permite a Dickens continuar ainda hoje o grande símbolo literário da harmonia possível e capaz de levar à reconciliação dos homens consigo próprios. Porque, como ele escreve num dos contos: "o Natal só acontece uma vez no ano, triste verdade, pois se aparecesse todos os meses, este mundo seria muito diferente".

João Costa

 

Charles Dickens

Contos De Natal, Círculo De Leitores, 1978  

publicado por coquetteintelectual às 21:56

22
Dez 09

 

Um livro é mais que uma estrutura verbal, ou que uma série de estruturas verbais: é o diálogo que trava com o seu leitor e a entoação que impõe à sua voz e as cambiantes e duradouras imagens que deixa na sua memória. Este diálogo é infinito; (...) A literatura não é esgostável, pela simples e suficiente razão de que nem um só livro o é. O livro não é um ente incomunicado: é uma relação, é um eixo de inúmeras relações. Uma literatura difere de outra, ulterior ou anterior, menos pelo texto do que pela maneira de ser lida: se me fosse permitido ler qualquer coisa actual - esta, por exemplo - como a lerão no ano 2000, eu saberia como será a literatura do ano 2000.

 

Jorge Luís Borges

"Notas Sobre (Para) Bernard Shaw" (1951), Obras Completas 1952-1972, Volume II, Círculo De Leitores, 1998 

publicado por coquetteintelectual às 17:53

21
Dez 09

 

 

Antes de mais, importa dizer que estamos perante um romance já célebre e celebrado pelos seus múltiplos êxitos, desde o facto de se ter convertido no livro mais vendido em Itália nas últimas décadas até às numerosas traduções no mundo inteiro.

Livro-sensação, livro de descoberta ou de redescoberta e por isso mesmo livro não alheio à diversidade de reacções.

Atra´vés de um registo em que três gerações de mulheres dialogam, numa voz que reconta as suas vidas, Susanna Tamaro serve-se dessa estrutura narrativa para confrontar os diferentes tempos vividos e reavaliar este ciclo geracional. A leitura deste livro é enleante, quase hipnótica, comovente, o que justifica talvez o seu imenso sucesso internacional. De resto, a circulação do livro a esta escala surpreendente deve-se a um fenómeno de passagem de testemunho de leitor para leitor, traduzido numa verdadeira consagração pública do romance de Susanna Tamaro que o tem mantido ininterruptamente no topo das preferências de leitura.

 

Susanna Tamaro

Vai Aonde Te Leva O Coração, Editorial Presença, 2003    

publicado por coquetteintelectual às 21:48

10
Dez 09

 

O baile de finalistas, o acontecimento mais importante da vida de estudante do liceu, pode ser verdadeiramente assustador.

Tudo tem de estar perfeito, pois é bem provável que nessa noite encontres o amor da tua vida, e terás de estar preparada para enfrentar todos os perigos que possam surgir, quer sejam um vampiro diabolicamente lindo de olhos azuis, ou o Anjo da Morte mais sedutor que alguma vez existiu e que te arrebata o coração, ou mesmo um demónio fascinante que te enfeitiça até te deixar completamente apaixonada, provando que até mesmo a mais malévola das criaturas pode sucumbir ao amor.

Nesta surpreendente obra, cinco autoras extraordinárias trazem-nos um novo olhar sobre os bailes de finalistas, mostrando que o amor poderá estar onde menos se espera.

 

Danças Malditas, Bertrand Editora, 2009

publicado por coquetteintelectual às 18:28

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