Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

29
Nov 09

 

 

A poesia é uma viva descrição das coisas que nela se tratam; outros lhe chamam pintura que fala e imita o mesmo que faria a natureza, e com que agrada aos homens. O artifício da poesia tem por fim agradar, e por isso só se emprega em dar regras com que possa ocupar gostosamente um engenho. A isto consagram os poetas todo o seu engenho e juízo. Se buscam argumento elevado, é para agradar com a galantaria da imitação; se não dizem coisas contrárias às novas inclinações, isto mesmo é para agradar; se propõem movimentos apaixonados, com que pintam ao vivo diferentes afectos da alma, também isso é para agradar; de sorte que este ídolo do artifício poético. E como isto não se pode conseguir sem saber procurar pensamentos ou argumentos próprios para mover as nossas paixões, saber servir-se de palavras próprias para pintar aquela coisa que se quer (o que encerra as figuras da voz e do ânimo), fica bem claro que, para fazer tudo o que pede a arte, se requer boa Retórica. Mas esta razão se entenderá melhor se observarmos as diferentes espécies de poesia.

 

Luís António Verney

Verdadeiro Método De Estudar - Carta VII    

publicado por coquetteintelectual às 22:12

25
Nov 09

 

 

Como é que se define o amor? Como podemos saber se o que sentimos por esta ou aquela pessoa é mesmo amor e não qualquer outro estado intermédio ou subproduto do sentimento em questão?

O amor está tão na moda que as pessoas o procuram e desejam como um bem de primeira necessidade. O amor é a água do coração; sentimos que simplesmente não podemos sobreviver sem ele. E de cada vez que a vida nos obriga a atravessar desertos amorosos, enchemos os cantis de distracções e paliativos, alguns destrutivos (droga, álcool, excessos vários), outros mais construtivos (meditação, desporto, viagens, amigos), até que um oásis de afecto se desenha no horizonte. É claro que o oásis pode ser uma miragem, mas só isso saberemos quando lá chegarmos. 

Há oásis qe parecem enormes e se revelam exíguos, outros que pensamos serem desinteressantes e se transformam em lugares bestiais, outros que são confortáveis, porém, aborrecidos, e outros ainda que se assemelham a um jogo de Playstation 2, cheios de desafios e de aventuras onde é preciso manter sempre a concentração para conseguir vencer obstáculos e passar ao próximo nível.

As boas histórias são feitas de obstáculos, da mesma forma que o amor também que se constrói na adversidade? Desconfio sempre das histórias amorosas em que tudo é sempre muito difícil. O amor é um mistério insondável, mas tem os seus sinais inequívocos, e na verdade não existe o amor per si, existem provas de amor. Quem não o mostra é porque não o tem, e, se não o tem, não vale a pena tentar fazer omeletas sem ovos.

As relações amorosas que começam com grandes dificuldades, porque ele nem sempre está disponível ou ela é frequentemente assaltada de dúvidas, não medram; ou a coisa flui ou emperra, e, como diz o ditado, o que nasce torto tarde ou nunca se endireita. O que acontece é que às vezes estamos tão carentes que interpretamos sinais de desamor como prenúncio de amor, dando ao outro o benefício da dúvida.

No amor não há dúvidas quanto à natureza do amor. Podem existir outras, do estilo «gosto dela, mas não gramo a família nem com molho de tomate» ou «ele é adorável, mas vou ter de lhe comprar boxers novos porque odeio aqueles slips que ele usa», mas não pomos em causa o amor que sentimos.

Citando Fernando Alvim numa ds suas crónicas, quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a bateria, nunca nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio da multidão. Quando se gosta de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campainha da porta, lemos sempre a mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso. Quando se gosta de algúem - e estou a escrever para os que gostam -, vamos para o local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para abrirem a porta, mas nada, nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante do que nós.

Um dos sinais inequívocos do amor é exactamente esse terceira entidade, o Nós, a consciência de que o Eu e o Outro formam algo que nos diferencia do resto do mundo. E o tempo que temos na nossa vida para Nós.

 

Margarida Rebelo Pinto

Onde Reside O Amor, Oficina Do Livro, 2008    

publicado por coquetteintelectual às 22:51

24
Nov 09

 

 

"Não só os discos dos Beatles a voltar aos escaparates 40 anos depois de "Abbey Road"; muitos são os livros que regressam às montras, pelos mais variados pretextos. (...)

Efemérides relacionadas com a carreira de grandes autores também estão na ordem do dia. (...)

Mas nem só as efemérides provocam reedições. Por exemplo, com uma adaptação para cinema, as editoras vão, muitas vezes, buscar livros que estavam a ocupar espaço nos armazéns, insuflando-lhes uma nova vida com capas novas modernizadas. Criando mesmo, algumas vezes, a ilusão de que estão a lançar novidades.

«Além da reedição normal, que se faz quando os livros se esgotam, o que fazemos muitas vezes é aproveitar pretextos para reeditar livros que estão no nosso fundo de catálogo. (...) No meio de tantos livros é difícil chamar a atenção para os que valem mesmo a pena.» (...)

O êxito de uma obra desencadeia, naturalmente, a procura. É por isso que as editoras se mantém atentas e aproveitam a receptividade do público para lhe dar a conhecer outros títulos do mesmo autor. (...) As adaptações de livros ao cinema são desde sempre muito comuns. E se muita gente vai ver o filme porque leu o livro, actualmente o contrário também se verifica. Muita gente quer descobrir os livros que inspiram os filmes, e essa é outra motivação para as editoras de os (re)colocarem nas prateleiras." (...)  

Filipa Queiroz 

 

Os Meus Livros, Número 81, Novembro de 2009    

publicado por coquetteintelectual às 19:49

23
Nov 09

 

[Introdução a Transporte No Tempo (1973)]

 

Ao escrever, e independentemente do valor que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. Dou palavras um pouco como as árvores dão frutos, embora de uma forma pouco natural e até antinatural porquento, sendo como o é a poesia uma forma de cultura, representa uma alteração, um desvio e até uma violência exercidos sobre a natureza. Mas, ao escrever, dou à terra que para mim é tudo, um pouco do que é a terra. Nesse sentido, escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra.

Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me. Altero uma ordem, uma harmonia, uma paz que, mais do que a paz invocada como instrumento de opressão, mais do que a paz dos cemitérios, é a paz, a harmonia das repartições públicas, dos desfiles militares, da concórdia doméstica, das instituições de benemerência. Ao escrever, mato-me e mato. A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis,  desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida.

O poeta deve surpreender-se e surpreender, recusar-se como instituição, fugir da integração, da reforma que até mesmo pessoas e grupos aparentemente progressivos lhe começam subtilmente a tentar impor o mais tardar aos trinta anos. Abaixo o oportunismo, a demagogia, seja a que pretexto for. O poeta deve desconfiar dos aplausos, do êxito e até passar a abominar o que escreveu logo depois de o ter escrito. Numa sociedade onde quase todos, pertencentes a quase todos os sectores, procuram afinal instalar-se o mais cedo possível, permanecer fiéis à imagem que de si próprios criaram pessoalmente ou por interpostas pessoas, o poeta denuncia-se e denuncia, introduz a intranquilidade nas consciências, nas correntes literárias ou ideológicas, na ordem pública, nas organizações patrióticas e nas patrióticas organizações.

Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de institucionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas ou coisas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão dele, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.

É claro que falo do poeta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou.

Falo do homem que, ombro a ombro com os oprimidos, empunhando a palavra como uma enxada ou uma arma, encontrou ou pelo menos procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos.

O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da autobiografia, tentou evitar a todo o custo a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou apreender com as palavras, finalmente disponìvel já não tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.

     

Ruy Belo

Todos Os Poemas, Assírio & Alvim, 2000      

publicado por coquetteintelectual às 20:02

 

Após longa ausência, pretendo novamente destacar o que constitui o âmbito de criação literária.

Bem Haja.

publicado por coquetteintelectual às 19:54

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