Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

30
Nov 08

 

"Ninguém pode dizer: "vou compor poesia". Nem o maior poeta o pode afirmar, pois, ao criar, o espírito é como brasa que se extingue, mas que uma influência invisível, qual vento constante, desperta para um fulgor transitório; este poder nasce de dentro, como a cor de uma flor que desmaia e muda à medida que se desenvolve, e a parte consciente da nossa natureza é incapaz de profetizar, quer a sua aproximação quer o seu afastamento: pudesse esta influência perdurar na pureza e força originais, e seria impossível predizer a grandeza dos resultados; porém, quando se inicia a composição, a inspiração está já em declínio, e a mais gloriosa poesia que alguma vez se comunicou ao mundo é provavelmente uma ténue sombra das concepções originais do poeta. Invoco o testemunho dos maiores poetas do presente: não será um erro afirmar que os mais belos trechos poéticos são produto do labor e do estudo? O labutar e o proletar recomendados pelos críticos podem, numa interpretação justa, não significar mais do que uma cuidadosa observância dos momentos de inspiração e uma ligação artificial das suas sugestões, preenchendo os espaços entre elas com a intertextura de expressões convencionais, uma necessidade imposta apenas pelas limitações da própria faculdade poética (...)."

 

Percy Bysshe Shelley

"Defesa da Poesia", Poesia Romântica Inglesa

publicado por coquetteintelectual às 21:41

29
Nov 08

 

"Jamie levava a Bíblia para todo o lado e, se a sua aparência e Hegbert não afastavam os rapazes, a Bíblia podem ter a certeza que sim. Ora bem, eu gostava tanto da Bíblia como qualquer outro rapaz, mas Jamie parecia gostar dela de um modo que me era completamente estranho. (...)

Para Jamie, tudo estava nos desígnios de Deus. Havia outra coisa. Sempre que alguém falava com ela, qualquer que fosse o assunto, mencionava sempre os desígnios de Deus. O jogo de basebol foi adiado por causa da chuva? Deve ser desígnio de Deus para evitar que algo de mais aconteça. Um teste surpresa de trigonometria a que todos na turma chumbaram? Deve estar no desígnio de Deus para nos proporcionar desafios. Bem, já devem ter ficado com uma ideia."

 

Nicholas Sparks 

Um Momento Inesquecível, Editorial Presença, 2008   

publicado por coquetteintelectual às 21:31

28
Nov 08

 

És aquela que tudo te entristece,

Irrita e amargura, tudo humilha;

Aquela a quem a Mágoa chamou filha;

A que os homens e a Deus nada merece.

 

Aquela que o sol claro entenebrece,

A que nem sabe a estrada que ora trilha,

Que nem um lindo amor de maravilha

Sequer deslumbra, e ilumina, e aquece!

 

Mar Morto sem marés nem ondas largas,

A rastejar no chão, como as mendigas,

Todo feito de lágrimas amargas!

 

És ano que não teve Primavera...

Ah! Não seres como as outras raparigas

Ó Princesa Encantada da Quimera!... 

 

Florbela Espanca

Sonetos, Bertrand Editora

publicado por coquetteintelectual às 17:29

27
Nov 08

 

 

"Todos são leitores, e os seus gestos, a sua actividade, o prazer, responsabilidade e poder que obtêm na leitura partilho-os com eles.

(...)

Os leitores de livros, em cuja família eu estava a entrar sem o saber (pensamos sempre que estamos sós em cada descoberta e que cada experiência, da morte ao nascimento, é aterradoramente singular), expandem ou condensam uma função que nos é comum a todos. 

(...)

Porém, em todos os casos, é o leitor que lê o sentido; é o leitor que reconhece a um objecto, lugar ou acontecimento uma possível legibilidade ou lha concede; é o leitor que tem de atribuir significação a um sistema de signos e em seguida decifrá-lo. Todos nos lemos a nós próprios e ao mundo à nossa volta para vislumbrarmos o que somos e onde estamos. Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase tanto como respirar, é uma das nossas funções vitais."

(...)

 

Alberto Manguel

Uma História da Leitura, Editorial Presença, 1999  

publicado por coquetteintelectual às 19:09

26
Nov 08

 

 

"O refeitório era uma grande sala sombria, de tectos baixos. Sobre duas longas mesas fumegavam duas terrinas, que, com grande consternação minha, deitavam um cheiro nada apetitoso. Vi uma geral manifestação de descontentamento quando os vapores do repasto chegaram às narinas daquelas que estavam condenadas a comê-lo. Na vanguarda da procissão, as raparigas mais velhas da primeira classe rosnaram:

- Que espiga! Temos a sopa outra vez esturrada!

(...)

A minha fome era tão grande que devorei uma ou duas colheres do meu prato sem lhe tomar o gosto; mas, uma vez o primeiro apetite aplacado, vi que o que tina diante de mim era uma coisa nauseabunda. Sopa esturrada é quase tão detestável como batatas podres. Até a fome a recusa... As colheres agitaram-se lentamente: vi cada aluna provar a sua parte fazendo o possível por engoli-la, mas quase todas desistiram em breve. O almoço estava no fim e ninguém tinha almoçado."

 

Jane Eyre, Charlotte Bronte, Difel, 2004 

publicado por coquetteintelectual às 21:52

 

A word is dead

When it is said,

Some say.

I say it just

Begins to live

That day.

 

Emily Dickinson

 

publicado por coquetteintelectual às 21:34

25
Nov 08

 

A BELEZA EM CADA SER É UMA ALEGRIA ETERNA

 

A beleza em cada ser é uma alegria eterna:

o seu encanto torna-se maior e nunca se há-de perder

no nada; reservar-nos-á ainda um refúgio

de paz, onde adormeceremos, habitados por sonhos

suaves, uma íntima plenitude, uma respiração branda.

Comecemos, assim, a tecer em cada manhã

uma grinalda de flores para nos unirmos à terra,

apesar do desalento, da ausência daqueles

cuja nobreza amávamos, dos dias cheios de escuridão,

de todos os caminhos insalubres e misteriosos,

abertos para os nossos anseios; sim, apesar de tudo,

uma forma de beleza afasta o sudário

das nossas almas sombrias. Assim é o sol, a lua,

as antigas ou novas árvores cuja bênção faz germinar

a sombra sobre os humildes rebanhos; os narcisos

e o mundo verdejante que os cerca; e os límpidos rios

que para si criam um dossel de frescura

durante as estações ardentes; os silvados do bosque

enriquecidos pelo belo, nascente esplendor das rosas;

e, também, a magnificência do destino

que imaginamos para os mortos poderosos;

e as histórias encantadoras que lemos ou escutamos:

fonte inesgotável duma imortal bebida,

que vem do limiar do céu e para nós se derrama.

 

E não é apenas durante algumas horas breves

que ficamos presos a estas essências; assim como as árvores

murmurando à volta dum templo logo se tornam

tão amadas como o próprio templo, também a lua

e a paixão da poesia, glórias inifinitas, tantas vezes

nos assombram, até serem uma luz vivificadora

para a alma, e tão estreitamente nos cingem

que, fique a brilhar o sol ou se apaguem os céus,

para sempre hão-de existir em nós, ou morreremos.

 

Tradução de Fernando Guimarães

Poesia Romântica Inglesa, Relógio D'Água, 1992

publicado por coquetteintelectual às 21:45

 

John Keats

 

Endymion (Excerpts)

 

BOOK I

 

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o'er-darkened ways
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young, sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
'Gainst the hot season; the mid forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven's brink.

 

    Nor do we merely feel these essences
For one short hour; no, even as the trees
That whisper round a temple become soon
Dear as the temple's self, so does the moon,
The passion poesy, glories infinite,
Haunt us till they become a cheering light
Unto our souls, and bound to us so fast,
That, whether there be shine, or gloom o'ercast;
They always must be with us, or we die.

 

Everypoet.com Archive Of Classic Poems 

publicado por coquetteintelectual às 18:45

24
Nov 08

 

CAPÍTULO II

 

A TORRE DE BABEL

 

A linguagem é comum a todos os homens. Não há diferenças de natureza entre as línguas. Há apenas diferenças culturais. Não há línguas "simples" e línguas "complexas". Todas são igualmente simples e complexas. (...)

Todas as línguas têm em comum certas propriedades e características "universais", que definem, precisamente, a linguagem. Pois o que se visa, através da extraordinária variedade de línguas existentes, é a unidade da linguagem humana, aquilo que a especifica, em relação aos códigos de comunicação não humanos. Aliás, a procura de uma língua original única, o mito da torre de Babel, responsável pela diversidade linguística, a nostalgia do paraíso perdido da língua única ligam-se, num plano mítico, à procura que hoje se faz dos universais de linguagem, das operações mentais que sustentam o funcionamento de todas as línguas(1).

Todas as línguas possuem uma dupla articulação, em unidades de sentido (palavras ou morfemas) e unidades fónicas (vogais e consoantes). Todas elas constituem sistemas cujas unidades se definem em relação ao conjunto do sistema organizado pela sua estrutura. O som mantém com o sentido uma relação a que se chama arbitrária (isto é, convencional). Todas as línguas comportam a redudância (que é um excesso de meios em relação à informação efectivamente transmitida), a ambiguidadedissemetriasirregularidades, todas elas têm a possibilidade de, a partir de um número de signos teoricamente finito, produzir enunciados em número infinito. Todas elas têm um carácter evolutivo perpétuo, cuja suspensão significa a sua morte; todas elas autorizam a invenção, a criatividade, as deslocações de sentido, as figuras de estilo, o jogo. Todas elas estão estruturadas a três níveis: o do som, o do arranjo gramatical, o do sentido. Há, finalmente, dois aspectos que parecem ser óbvios: a mensagem linguística é linear (o que permite distingui-la, por exemplo, da mensagem musical, que autoriza a sobreposição de notas; o canto em cânone trata a voz como se fosse um instrumento); as unidades linguísticas são discretas, ou seja, isoláveis umas das outras (o que, na escrita, é materializado pelo branco): se o espectro de cores constitui um contínuo cujas fronteiras são arbitrariamente traçadas pela língua, a cadeia falada constitui, pelo contrário, uma sequência de unidades distintas.

 

(1) É difícil delimitar, na aquisição da linguagem por parte da criança, o aspecto cultural (categorias conceptuais impostas pela língua aprendida) e o aspecto que revela da aptidão universal para a linguagem (operações lógicas como a negação ou os quantificadores, categorias gramaticais e semânticas supostamente universais).

 

Marina Yaguello

Alice No País Da Linguagem, Editorial Estampa, 1997  

publicado por coquetteintelectual às 19:30

23
Nov 08

 

 

"Ao meu lado estava um livro e, ao abri-lo, muito casualmente, folheei-o até Tennyson. E aqui dei com Tennyson a cantar:

 

Caiu uma lágrima esplêndida

Do martírio junto ao portão.

Ela está a chegar, a minha pomba, o meu amor;

Ela está a chegar, a minha vida, o meu destino;

A rosa vermelha grita: «Está perto, está perto;»

E a rosa branca chora: «Está atrasada»;

A esporeira escuta: «Estou a ouvi-la, a ouvi-la»;

E o lírio murmura: «Eu fico à espera.»

 

Era isso que os homens sussuravam nos almoços antes da guerra? E as mulheres?

 

O meu coração é como uma ave a cantar

Cujo ninho está num ramo orvalhado;

O meu coração é como uma macieira

Cujos ramos se vergam carregados de frutos;

O meu coração é como uma concha irisada

Que brinca num mar calmo;

O meu coração está mais alegre que tudo à minha volta

Porque o meu amor está a chegar junto de mim

 

Era isso que as mulheres sussuravam nos almoços antes da guerra?

Havia qualquer coisa de tão ridículo ao imaginar as pessoas a murmurar tais coisas, mesmo sendo em voz baixa, nos almoços antes da guerra que dei uma gargalhada e tive de explicar o meu riso (...)."

 

Virginia Woolf 

Um Quarto Só Para Si, Relógio D'Água, 2005 

publicado por coquetteintelectual às 17:58

22
Nov 08

 

 

este livro. passa um dedo pela página, sente o papel

como se sentisse a pele do meu corpo, o meu rosto.

 

este livro tem palavras, esquece as palavras por

momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.

 

sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre

a tua. damos as mãos quando seguras este livro.

 

não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.

eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.

 

pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre

o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.

 

José Luís Peixoto

A Casa, a Escuridão, Temas e Debates, 2002

publicado por coquetteintelectual às 15:23

14
Nov 08

 

 

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

 

Alexandre O'Neill

  

É pertinente iniciar este espaço com a escolha peculiar de um poema, da autoria de Alexandre O'Neill.

O pressuposto deste espaço, na minha óptica, envolve nomeadamente o campo ou domínio da palavra, visto que, através da linguagem, o Homem relaciona-se com as forças da natureza.   

publicado por coquetteintelectual às 22:06

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