Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

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Jan 10

 

 

Ela sentou-se na cadeira e disse

- Tive um sonho, esta noite. Um sonho só com homens. O primeiro era o meu pai, que estava a discutir com a minha mãe. Parecia outra vez a minha infância. A minha mãe pedia ao meu pai para não sair de casa e para ficar e ele ameaçava que se ia emboar. Ela agarrava-o e ele despegava-se. Ela implorava e ele negava-se. Depois eu avançava para ele e dizia-lhe para se decidir, ali e já. Ou ia, e nunca mais voltava, ou ficava e nunca mais saía. Ele olhava para mim com medo e eu controlava-o através desse medo. Ficou sem saber o que fazer, durante muito tempo, e depois fui eu que o obriguei a sair. Expulsei-o de casa. O que a minha mãe nunca teve coragem de fazer. Ele foi. Não o deixei olhar para trás.

A seguir, sem se mexer na cadeira, imobilizada pelas palavras, ela continuou

- Depois era o meu marido, ex-marido, para dizer a verdade. Ele não sabia escolher, havia duas mulheres, eu e a outra. Por um lado ele queria-me a mim, porque era mulher dele e ele tinha medo das consequências, de perder os filhos, de sair de casa. Por outro lado, queria a outra, porque estava apaixonado embora desconfiasse daquela paixão. Passava as noites em claro, a tentar decidir. Isto na vida, na minha vida. No meu sonho desta noite, era eu que decidia por ele, era eu que mandava. Pu-lo fora, violentamente. Roupa pela janela, malas a voar, porta escancarada. E tudo isto sem um grito, uma lágrima, um gemido, um pedido. Tudo em silêncio, a frio. Exactamente o contrário do que aconteceu há anos, quando ele me quis deixar. Quando chorei, gemi, usei os filhos contra ele a meu favor. Ficámos juntos mais uns anos, até ao divórcio. E tantas vezes desejei que ele se tivesse ido embora. Tinha sido melhor. Desta vez, no sonho, senti-me bem, como não me sentia há anos, desde a morte do meu pai. Eu detestava o meu pai.

Agora ela mexeu uma mão, acariciou a face, puxou uns fios de cabelo. Suspirou de leve

- E no sonho, a seguir, era o meu filho. O meu único rapaz rapaz. O meu preferido, nunca gostei de ter raparigas. O mundo não gosta de raparigas. No sonho, o meu filho regressava a casa. Era como se nunca tivesse saído. No dia em que ele morreu, lembro-me de que andava inquieta desde manhã, ia à janela, as coisas caíam-me das mãos. Instinto de mãe. Quando eram onze da noite e ele ainda não tinha regressado soube logo que qualquer coisa tinha acontecido. Quando o telefone tocou, antes de me falarem no desastre e no carro desfeito eu já sabia a verdade. Sabia que ele tinha saído de manhã com os amigos e que nunca mais voltaria. Desde esse dia tenho estado como morta, você sabe bem, como morta. Nunca perdoei ao meu marido, quis o divórcio, mas ele não teve culpa, ninguém teve culpa. O horror não tem culpados.

Ela sorriu, pela primeira vez em vinte anos

- Você conhece estas histórias, você sabe bem como elas nunca tinham fim. Até esta noite. Esta noite tive um sonho e senti-me bem ao acordar. Expulsei quem devia, fiquei com o meu filho. Vi-o como ele seria hoje, com 38 anos, e não como era quando morreu, um rapaz. Vi um homem, bonito. Como ele seria. Acha que preciso de cá voltar? Acho que nunca mais cá volto.

Ela levantou-se da cadeira, devagarinho. E saiu do consultório.

 

Clara Ferreira Alves

Mala De Senhora E Outras Histórias, Publicações Dom Quixote, 2009

publicado por coquetteintelectual às 18:13

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