Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

31
Mar 12

 

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

 

Hélia Correia

A Terceira Miséria, Relógio d'Água, 2012

publicado por coquetteintelectual às 16:37

21
Mar 12

 

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

 

Jorge de Sena

Antologia Poética de Jorge de Sena, Guimarães Editores, 2010 

publicado por coquetteintelectual às 21:08

19
Mar 12

IMMANUEL KANT

(1724-1804)

 

de CRÍTICA DA FACULDADE DE JULGAR

 

(Do Livro I da Parte I)

 

1. O JUÍZO DO GOSTO É ESTÉTICO

 

Para distinguir se algo é ou não belo, referimos a representação não por meio do entendimento ao objecto para conhecimento, mas por meio da imaginação (talvez ligada com o entendimento) ao sujeito e ao sentimento de prazer ou desprazer deste. O juízo do gosto não é, portanto, um juízo cognitivo, por conseguinte não é lógico mas estético, por tal se entendendo aquilo cujo fundamento de determinação não pode ser senão subjectivo. Mas toda referência das representações, mesmo a das sensações, pode ser objectiva (e então ela significa o real de uma representação empírica); só não a referência ao sentimento do prazer ou desprazer, pela qual nada se designa no objecto, mas na qual o sujeito sente ele próprio como é afectado pela representação.

Apreender, pelo poder do conhecimento, um edifício regular e conforme ao fim (seja numa espécie de representação nítida e confusa) é algo completamente diferente de ter consciência desta representação com a sensação de satisfação. Aqui a representação é completamente referida ao sujeito, e de facto ao sentimento vital deste, sob o nome de sentimento do prazer ou desprazer; o qual alicerça um poder muito particular de distinção e de ajuizamento que em nada contribui para o conhecimento, mas que apenas mantém a representação dada no sujeito face a todo o poder das representações, de que o espírito se torna consciente no sentimento do seu estado. Dadas representações num juízo podem ser empíricas (por conseguintes estéticas); o juízo, porém, que sobre elas é passado é lógico se aquelas no juízo são referidas apenas ao objecto. Mas, pelo contrário, se as representações dadas, ainda que bem racionais, forem referidas num juízo tão-só ao sujeito (ao seu sentimento), nessa medida elas serão sempre estéticas.

 

Álvaro Pina,

O Belo Como Categoria Estética, Livros Horizonte, 1982 

publicado por coquetteintelectual às 17:59

05
Mar 12

IV

A singularidade da obra é idêntica à sua forma de se instalar no contexto da tradição. Esta tradição, ela própria, é algo de completamente vivo, algo de extraordinariamente mutável. Uma estátua antiga de Vénus, por exemplo, situava-se num contexto tradicional diferente, para os Gregos que a consideravam um objecto de culto, e para os clérigos medievais que viam nela um ídolo nefasto. Mas o que ambos enfrentavam da mesma forma, era a sua singularidade, por outras palavras, a sua aura. O culto foi a expressão original da integração da obra de arte no seu contexto tradicional. Como sabemos, as obras de arte mais antigas surgiram ao serviço de um ritual, primeiro mágico e depois religioso. É, pois, de importância decisiva que a forma de existência desta aura, na obra de arte, nunca se desligue completamente da sua função de ritual. Por outras palavras: o valor singular da obra de arte "autêntica" tem o seu fundamento no ritual em que adquiriu o seu valor de uso original e primeiro. Este, independentemente de como seja transmitido, mantém-se reconhecível, mesmo nas formas mais profanas do culto da beleza, enquanto ritual secularizado.

(...)

 

Walter Benjamin

A Obra De Arte Na Era Da Sua Reprodutibilidade Técnica

 

publicado por coquetteintelectual às 19:12

21
Fev 12

Os jogos são em número variadíssimo e de múltiplos tipos: jogos de sociedade, de destreza, de azar, jogos de ar livre, de paciência, de construção, etc. Apesar desta quase infinida diversidade, e com uma notável constância, a palavra «jogo» evoca por igual as ideias de facilidade, risco ou habilidade. Acima de tudo, contribui infalivelmente para uma atmosfera de descontracção ou de diversão. Acalma e diverte. E voca uma actividade sem escolhos mas também sem consequências na vida real. Opõe-se ao carácter sério desta última e, por isso, vê-se qualificada de frívola. Por outro lado, opõe-se ao trabalho, tal como o tempo perdido se opõe ao tempo bem empregue. Com efeito, o jogo não produz nada - nem bens nem obras. É essencialmente estéril. A cada novo lance, e mesmo que estivessem a jogar toda a sua vida, os jogadores voltam a estar a zero e nas mesmas condições do início. Os jogos a dinheiro, apostas ou lotarias, não são excepção. Não criam riqueza, movimentam-na.

(...)

 

Roger Caillois

Os Jogos E Os Homens, Edições Cotovia, 1990

publicado por coquetteintelectual às 15:24

21
Jan 12

 

A poesia, diz-se, é uma questão de palavras. E isto é tão verdadeiro quanto dizer-se que as pinturas são uma questão de tinta e os frescos uma questão de água e têmpera. Está tão longe de ser toda a verdade que se torna um pouco idiota se for pronunciado de modo sentencioso.

A poesia é uma questão de palavras. A poesia é o encadear de palavras num múrmurio, numa rima e numa sucessão de cores. A poesia é uma interacção de imagens. A poesia é a sugestão iridescente de uma ideia. A poesia é todas essas coisas e é ainda algo mais. Com todos esses ingredientes teremos qualquer coisa muito semelhante à poesia, qualquer coisa a que poderíamos aplicar a velha designação romântica de "poesy". E esta, como o bricabraque, estará sempre na moda. Mas a poesia é mais do que isso.

A qualidade essencial da poesia é que ela implica um renovado esforço de atenção e "descobre" um mundo novo dentro do mundo conhecido. O homem, os animais e as flores vivem todos no seio de um caos que lhes é estranho, uma vaga em imparável movimento. Ao caos a que nos habituámos, chamamos cosmos. Ao indizível caos interior de que somos compostos, chamamos consciência, mente e até civilização. Mas ele é, em última instância, um caos, iluminado por visões ou destituído delas, tal como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece.

(...)

O que se passa então com os poetas, nesta conjuntura? Revelam o desejo íntimo da humanidade. O que revelam eles? Mostram o desejo do caos e o medo do caos. O desejo do caos é o sopro da sua poesia. O medo do caos manifesta-se na exibição de formas e técnicas. A poesia é feita de palavras, dizem. E então sopram bolhas de som e imagem que cedo rebentam com o sopro do anseio pelo caos que os invade.

(...)

 

D. H. Lawrence

"Preface" To Chariot Of The Sun, By Harry Crosby

in Phoenix: The Posthumous Papers Of D. H. Lawrence

London: Heinemann, 1936

[Tradução de Isabel Fernandes]    

publicado por coquetteintelectual às 12:45

15
Jan 12

 

 

"A degradação da cultura está intimamente ligada ao capitalismo neoliberal"

Urbano Tavares Rodrigues

 

Esteiro - Parabéns pela edição das Obras Completas, em curso de publicação. Queres falar sobre isso?

U.T.R. - A publicação das minhas Obras Completas foi para muitos leitores uma descoberta; jovens que ignoravam e descobriram afinidades com a minha escrita e com os meus ideais. Além disso, os prefácios de Eugénio Lisboa e de Manuel Gusmão são muito ricos e esclarecedores o que contribui para iluminar essas obras antigas que agora surgem renovadas.

Esteiro - Como vês a literatura portuguesa actual e o seu papel na nossa sociedade?

U.T.R. - A literatura portuguesa actual apresenta escritores com preocupações sociais muito fortes, como, por exemplo, José Luís Peixoto no seu último romance Livro, valter hugo mãe, especialmente em O Apocalipse dos Trabalhadores, o Rui Cardoso Martins no seu romance Deixem Passar o Homem Invisível. Mesmo noutros autores como, por exemplo, João Tordo, há textos magníficos de solidariedade social e isso é extensivo a Dulce Maria Cardoso ou a Patrícia Reis. A degradação da cultura em favor dos subprodutos alienantes está intimamente ligada ao capitalismo neoliberal que vive o seu crepúsculo com grande agressividade. É claro que a discussão teórica destes problemas tem sido por vezes debatida quer em artigos da Vértice quer nas tão importantes reuniões de intelectuais progressistas, em Serpa, organizadas pelo Miguel Urbano Rodrigues, com o título genérico "Socialismo ou Barbárie".

Esteiro - Qual é para ti a grande contradição do nosso tempo e como achas que se resolverá?

U.T.R. - A globalização capitalista que estendeu os seus tentáculos até à China, está fortemente ameaçada de um estoiro monumental, o que abriria caminho ao surto de democracias socialistas com um enorme pendor ecológico e características possivelmente diferentes neste ou naquele espaço da Europa e da América Latina. É difícil prever o futuro, mas estas sociedades de homens livres e de tendência igualitária correspondem a um fundo anseio da humanidade.

 

Entrevista de

Leonor Freitas,

em 6 de Janeiro de 2011

 

publicado por coquetteintelectual às 18:00

13
Jan 12

 

 

Com a esperança de governar a casa já elase via a comprar livros e coisas para as paredes. Havia nas papelarias da Baixa umas estapas que cobiçava tanto!

Mas vem um dia... tinha ela ido para o Liceu; um dia em que, de volta a casa, a encontrou virada do direito para o avesso. Que podia ter acontecido? A criada a choramingar, a casa revolvida; e a madrinha?

A rapariga, que era nova e relaça, e costumava deitar pingos de água nas cartas que mandava ao namorado, nem lhe respondeu.

- A madrinha? - perguntava ela, espantada.

- Aquela senhora...

- Qual senhora?

- Aquela, mais a senhora Ana, remexeram aí tudo e, e...

Em resumo tinham posto a casa a saque e raptado a dona Felismina.

A pobre senhora estava de cama, porque continuava doente, mas assim mesmo a tinham arrebatado, como a um fardo precioso.

O que ainda havia de valor em casa também desapareceu: jóias, os restos de um faqueiro de prata, loiça antiga, os cobertores, os lençóis de linho, alguns móveis... Por esquecimento, teriam ficado sujas? deixaram duas colheres de prata, que ainda conserva. Com elas sempre come.

 

Irene Lisboa

Voltar Atrás Para Quê?, Editores Associados, Livros Unibolso

 

publicado por coquetteintelectual às 17:33

27
Dez 11

 

 

Acredito que tudo o que podemos oferecer ao Céu é a honestidade humana. Quando chegamos aos portões de S. Pedro, quero eu dizer. Deve ser como sal para reinos sem sal, especiarias para os países sombrios do Norte. Uns poucos gramas na bagagem da alma que oferecemos para tentar entrar. Não sei como é a honestidade celestial. Mas digo isto para me preparar para a minha tarefa.

Pensei em tempos que a beleza era o meu bem mais precioso. Talvez assim tivesse sido no Céu. Mas não o foi nestas paragens terrenas.

Estar só, mas ser tomada por uma alegria imensa, de vez em quando, como julgo que me acontece, é na verdade um bem precioso. Aqui sentada, diante desta mesa marcada e riscada por uma dúzia de gerações de reclusos, pacientes, anjos, o que quer que sejamos, tenho de lhe descrever esta sensação de uma qualquer essência áurea que me invade, bem no sangue. Não é contentamento, mas uma oração tão feroz e perigosa como um rugido de leão.

Conto-lhe isto a si, a si.

Caro leitor. Deus o abençoe, Deus o abençoe.

 

Sebastian Barry

Escritos Secretos, Bertrand Editora, 2009   

publicado por coquetteintelectual às 21:56

25
Dez 11

 

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

 

David Mourão Ferreira

 

publicado por coquetteintelectual às 22:11

10
Dez 11

 

 

Olha para o relógio que está em cima da mesa. Passaram quase duas horas. Ainda se sente vigorosa, embora saiba que no dia seguinte pode ler o que escreveu e achá-lo oco, empolado. O livro que temos na nossa imaginação é sempre melhor do que aquele que conseguimos passar para o papel. Bebe um gole de café frio e resolve ler o que escreveu até então.

Parece-lhe bastante bom, algumas passagens parecem-lhe mesmo muito boas. Tem esperanças excessivas, evidentemente - quer que este seja o seu melhor livro, aquele que corresponda finalmente às suas expectativas. Mas pode um único dia na vida de uma mulher comum transformar-se no suficiente para um romance?

Virgina bate ao de leve nos lábios com o polegar. Clarissa Dalloway morrerá, disso tem certeza, embora nesta fase inicial seja impossível dizer como ou sequer, precisamente, porquê. Está no entanto convencida de que ela porá fim à sua vida. Sim, ela fará isso.

Virginia pousa a caneta. Gostaria de escrever todo o dia, de encher trinta páginas em lugar de três, mas passadas as primeiras horas alguma coisa vacila dentro dela, e receia, se insistir para além dos seus limites, prejudicar todo o projecto. O deixe transviar-se para um reino de incoerência do qual talvez nunca possa regressar. Ao mesmo tempo, detesta passar qualquer das suas horas límpidas a fazer outra coisa que não seja escrever.

(...)

 

Michael Cunningham

As Horas, Gradiva, 2003

publicado por coquetteintelectual às 16:27

08
Dez 11

Assim conversando, entraram o bastante pela floresta dentro para ficarem fora da observação de qualquer viandante casual que seguisse pelo atalho. Aqui se sentaram num monte alto de musgo, que, em qualquer altura do século anterior, havia sido um pinheiro enorme, com as raízes e o tronco na sombra, e a cabeça erguida alto no ar superior. O lugar onde se tinham sentado era um valezinho, com uma pequena encosta, coberta de flores mortas, subindo de cada lado, e um riacho correndo pelo meio, por sobre um leito de folhas caídas e afogadas. As árvores, que se curvavam sobre ele, tinham de vez em quando deixado cair grandes ramos, que se atravessavam na corrente e obrigavam a formar redemoinhos e profundezas escuras em alguns pontos, enquanto, no seu curso mais vivo e rápido, se mostrava um leito de pedrinhas e de areia clara e brilhante. Deixando os olhos seguir o curso do riacho, vieram a luz reflectida da sua água até certa altura pela floresta dentro, mas daí a pouco todo ele se sumia na confusão dos troncos e dos arbustos, interrompidos aqui e ali por um grande rochedo coberto de líquenes cinzentos. Todas essas grandes árvores e esses pedregulhos de granito pareciam empenhados em fazer mistério do curso daquele ribeirinho; receando talvez que, com sua conversa constante, contasse segredos do coração da velha floresta onde corria, ou espelhasse as suas revelações na superfície lisa de uma lagoa minúscula.

Continuamente, em verdade, ao seguir os seu curso, o riacho mantinha uma voz leve, boa, quieta e afogante, porém melancólica, como a voz de uma criança que passasse a infância sem brincar, e não soubesse como ser alegre entre companheiros tristes e sucessos sombrios.

(...)

 

Nathaniel Hawthorne

A Letra Encarnada, Publicações Dom Quixote, Tradução de Fernando Pessoa, 1988  

publicado por coquetteintelectual às 19:08

04
Dez 11

 

Eu tivera uma infância nos confins da piedade, e isto por simples gosto da emoção, pois nada nem ninguém à minha volta a tal me predispunha: os meus pais não praticavam, os meus professores eram da escola laica, não se enxergava, ao redor, nenhuma avozinha de rosário na mão, e, se as minhas tias paternas, que, na época da prosperidade, estavam sempre metidas lá em casa para pedinchar um serviço ou dinheiro do irmão, não perdiam nenhuma missa, nenhuma procissão, o certo é que elas não faziam proselitismo. À saída da escola, apesar da fome canina que me atazanava à hora do lanche, acontecia-me frequentemente subir ao adro da basílica e penetrar sob as abóbadas de sombra e de humidade ainda mais altas que o céu lá fora. Ao domingo, não contente por ter assistido à missa cantada, abandonando a interminável partida de futebol na praça dos Plátanos, onde uma velha late de leite concentrado, embrulhada em trapos, servia de bola aos jogadores renovados pela passagem dos bandos de bairro, ia numa corrida assistir ao ofício das vésperas.

(...)

 

Angelo Rinaldi

Os Dias Acabam Sempre Por Voltar, Bertrand Editora, 1995    

publicado por coquetteintelectual às 14:49

02
Dez 11

 

 

Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                                                        perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.

 

Ana Hatherly

O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003

publicado por coquetteintelectual às 15:32

24
Nov 11

 

Antes que a pálida madrugada deixasse ver as mostruosas serpentes de fumo espraiando-se sobre Coketown, iluminaram-se os palácios de fadas. Um barulho de cardas na calçada, um tintilar rápido de sinetas, e todos os elefantes melancolicamente loucos, polidos e oleados para a melancolia diária, recomeçavam a sua tarefa.

(...)

Não receiem, boa gente de espírito inquieto, que a Arte relegue a natureza para o esquecimento. Ponham, seja onde for, a obra de Deus e a obra do homem, lado a lado, e a primeira, mesmo que esteja nas mãos de gente de pouca importância, ganhará em dignidade pela comparação.

Tantas centenas de operários nesta fábrica, tantas centenas de cavalos-vapor de energia. Sabe-se que até ao mais pequeno pormenor, aquilo que a máquina pode fazer; mas todos os calculadores da Dívida Pública são incapazes de me dizer qual a capacidade, para o bem ou para o mal, para o amor ou para o ódio, para o patriotismo ou para o descontentamento, para a decomposição da virtude em vício ou para a inversa, que tem, num dado momento, a alma de qualquer daqueles homens de rostos calmos e acções reguladas. Não há qualquer mistério na máquina e no mais mesquinho dentre eles há um mistério jamais decifrável.

E se guardássemos a matemática para outros objectos materiais e governássemos por diferentes meios essas terríveis quantidades desconhecidas!

(...)

 

Charles Dickens

Tempos Difíceis, Romano Torres, 3.ª Edição

    

publicado por coquetteintelectual às 21:14

15
Out 11

 

Porquê escrever este livro?

A oportunidade surgiu de um convite do jornalista José Vegar, que me fez essa proposta de escrever um livro acerca da 'Geração à Rasca', curiosamente, no dia 12 de Março, aquando da manifestação. O porquê, foi a História que o ditou. Era o momento certo, e deixando passar esta época achámos que ficaria fora de tempo.

O que é que caracteriza a 'Geração à Rasca'?

É difícil definir, e eu própria fui confrontada com isso. Falei com alguns especialistas precisamente para tentar responder a essa questão e cheguei à conclusão de que é um fenómeno que ainda está a desenvolver-se e a assumir-se. Não tem balizas etárias nem um perfil fechado, abrange várias camadas da sociedade. É muito complexo e, como disse Machado Pais [sociólogo], «esta é uma geração que nasce do rumo da História». É algo que surgiu porque o contexto social assim o ditou. É uma geração que está a encarar um contexto em que não cabem realmente os objectivos, os sonhos e as metas que se tinham delineado há uns anos e que está a tentar reinventar esse caminho que parecia tão linear. É verdade que as oportunidades também se criam, mas eu fui confrontada com muitos casos de jovens que não pararam de tentar implementar o seu negócio exactamente para fugir a essas propostas. Mas será que o País sabe receber esses projectos? Também é uma questão que se coloca e muitos dos jovens que tentaram fazê-lo não dizem que sim.

(...)

O que é que esta geração pode fazer, na tua opinião, para construir um futuro com mais sucesso?

Em primeiro lugar, é não baixar os braços. O pessimismo por vezes é quase inevitável, mas não é solução. Mais vale tentar aproveitar as oportunidades porque, num cenário de crise, elas podem surgir, mesmo que não sejam logo na área de formação que sempre desejámos. Não somos um país com falta de recursos por explorar, portanto, é tentar investir na inovação, na criatividade. É claro que passa também por decisões superiores, mil e uma políticas que poderiam ser revistas. Do ponto de vista das instituições de ensino seria desejável haver uma maior aproximação ao mercado de trabalho. Mas não podemos ver só culpados, todos temos uma responsabilidade, todos ainda temos algo nas mãos para fazer, e isso é positivo.

Andreia Arenga

Mundo Universitário, 24 De Outubro

 

Ana Filipa Pinto

Geração À Rasca - Retrato De Uma Geração, Editorial Planeta, 2011 

publicado por coquetteintelectual às 12:00

01
Set 11

 

 

«Carta Branca» e «Os Laços Que Nos Unem» são os teus dois livros até ao momento. Ambos têm muito de ti?

Sim, ambos contam quem eu sou, o que penso e aquilo em que acredito. Sou um homem de pessoas, palavras e afectos... escrevo para que as pessoas se relacionem melhor.

Escrever significa o quê, é uma libertação?

Escrever faz parte daquilo em que acredito ser a minha missão. Reconheço que tenho o dom da palavra e escrever é uma extensão disso, é uma comunicação superior, é beber de uma fonte a que poucos têm acesso.

Tens mais algum livro na gaveta? O que podes dizer sobre ele?

Sim. Tudo o que posso adiantar é que será publicado ainda este ano pela Oficina do Livro e que aborda a importância de viver «Agora».*

Reparámos que terminas todas as tuas mensagens com a palavra «Paz». Porquê?

A Paz, tal como a Felicidade, é um estado desejado por todos, e como acredito piamente no poder das palavras, uso esse termo para me identificar cada vez mais com ele. É como se fosse a minha rubrica.

(...)

Quais os principios que regem a tua vida, o teu bem-estar, a tua conduta?

Sou um homem de valores. A minha felicidade depende apenas de mim. O Amor é a entrega e a entrega não pressupõem bloqueios do passado, preconceitos no presente, nem medo do futuro. O perdão é a exeriência mais libertadora que podemos ter. Quem sonha, age; quem pensa, fica quieto. Aceitar o inaceitável é curvarmo-nos perante a pessoa e ascender ao céu.

(...)

A tua máxima de vida é a frase de António Gedeão «o sonho comanda a vida». Porquê esta escolha?

Porque um sonho alcançado é fruto de acção, e eu sou um homem que sabe o que anda aqui a fazer, como tal, ajo e ajo e ajo. Até hoje, tudo o que sonhei, acabei por concretizar; por vezes muitos anos depois, mas essa é a diferença entre os persistentes e os desistentes.

Qual o teu próximo sonho a realizar?

Ao contrário das outras perguntas fiquei algum tempo a pensar nesta resposta... Os sonhos são metas pessoais, e como tal só faz sentido existirem se o que almejamos depender apenas de nós. Segue um exemplo: não posso sonhar em fazer parte do elenco fixo da próxima novela, seja ela qual for, porque simplesmente não sou eu que me escolho, são outras pessoas. Portanto, olha... sonho em ser melhor homem, filho, namorado e amigo, em ter uma maior capacidade de aceitação, em perdoar mais facilmente, amar em todas frentes e ser feliz como o sou hoje, neste preciso momento!

 

Texto

Fátima Rodrigues Pereira

 

* «A Dança Da Vida» é a terceira obra de Gustavo Santos.

 

Boa Estrela, N.º 197, Setembro 2010

 

publicado por coquetteintelectual às 18:25

29
Ago 11

 

 

De certo modo, parecia-me reconhecer o quarto. Enquanto pairava, com o espírito meio dentro e meio fora do meu corpo como o génio da garrafa, pareceu-me ver com os olhos da memória a cama pequena com a colcha de patchwork, a mesa, a banqueta, os quadros na parede. Mose, Henry, a estranha demência que se apossara de mim no cemitério tinham sido relegados ao registo dos sonhos e eu própria era o produto de um sonho nas trevas flutuantes. Lembrava-me vagamente de ter chegado à casa de Crook Street, de ter sido conduzida ao cimo das escadas... umas mãos simpáticas nas minhas, rostos, nomes.

(...)

Lembrava-me dos nomes delas, das vozes, da suave mistura de odores nas peles empoadas enquanto me despiam e me lavavam o rosto com água quente e perfumada... depois havia um vazio total, e agora sentia-me limpa e confortável na cama estreita e branca, vestida com uma camisa de noite de linho com folhos, o cabelo escovado e entraçado para dormir.

(...)

 

Joanne Harris

Valete De Copas E Dama De Espadas, Edições ASA, 2005

 

publicado por coquetteintelectual às 22:00

28
Ago 11

 

 

Eu não estou a sonhar, estou acordada, apesar de as enfermeiras pensarem que estou a dormir. Tal como os famosos cientistas não reparavam numa empregada de limpezas inclinada para varrer a poeira que faziam, estas jovens enfermeiras não se lembram de que uma mulher, apesar de idosa, apesar de estar a morrer, pode ter um ouvido apurado. Por vezes, juntam-se aos pés da minha cama, falando sobre os namorados, os seus casos, as roupas novas que mandarão fazer, com os cortes de seda e de renda que têm estado a acumular. Não vêem que, em tempos, fui como elas, com um cabelo louro que me chegava à cintura, que lavava uma vez por semana e que secava à luz suave e doce do Sol. Por vezes, apetece-me erguer-me desta cama e contar-lhes tudo, os caminhos de bicicleta ladeados de flores e os jovens com os seus olhares, e tudo isso a dar origem aos anos de trabalho árduo, aos meus filhos, a duas guerras temíveis que iam acabar com todas as guerras, e, por fim, a esta cama, onde ouço os seus risos abafados. O mundo gira e volta a girar, e é sempre o mesmo.

(...)

 

Kim Edwards

Um Brilho No Escuro, Civilização Editora, 2008

 

publicado por coquetteintelectual às 22:43

27
Ago 11

 

 

Mesmo depois de o novo membro da família Button ter recebido um corte de cabelo, e de lho terem tingido de negro ralo e artificial, e depois de o terem barbeado até as suas feições brilharem, e de o terem vestido com roupa de rapazito feita à medida por um alfaiate estupefacto, era impossível que o senhor Button se esquecesse que o seu filho era uma triste desculpa de primogénito. Apesar de curvado pela idade, Benjamin Button - pois foi este o nome que lhe puseram, em vez do mais apropriado, mas injusto, Matusalém - media um metro e setenta e cinco centrímetros. A sua roupa era incapaz de dissimular este facto, da mesma forma que nem a depilação nem as sobrancelhas pintadas ocultavam o facto que os olhos que havia debaixo estavam apagados, aquosos e cansados. De facto, assim que a ama que os Button tinham contratado viu o recém-nascido, abandonou a casa num estado de considerável indignação.

Mas o senhor Button persistiu no propósito inamovível. Benjamin era um bebé, e devia ser tratado como um bebé.

(...)

 

F.S. Fitzgerald

O Estranho Caso De Benjamin Button, Impresa Publishing, 2010 

publicado por coquetteintelectual às 15:36

25
Ago 11

 

Não sei o que se passa com as mulheres; querem sempre uma relação diferente da que têm. Quando conhecem alguém não dizem: Que bom gosto, como gosto da maneira que ele tem de andar, a parcimónia com que actua, como pensa ou faz os ovos mexidos, mas sim como desejaria que ele pintasse quadros abstractos, que gostasse mais da farra, ou que não tivesse tantos medos infantis, os desejos incumpridos de subir na carreira. (...) O que se passa com as mulheres de hoje em dia? Apaixonam-se perdidamente por alguém que não aceitam tal como é. Pedem sempre ao outro algo mais ou diferente, algo que não está dentro das possibilidades dele. Algo que não so liga um ao outro, que não tem que ver com o seu temperamento ou os seus gostos. Porque é que as mulheres querem mudar os homens? Porque é que não se apaixonam pelo que eles são, e não pelo ideal do que poderiam vir a ser? Tudo em que se empenham é mudá-los, fazê-los à imagem e semelhança do que elas querem que sejam ou acreditam que eram. Podem passar a vida a tentar transformar o homem com quem estão para que se pareça com esse outro ideal que foi sendo forjado na mente à conta de imaginá-lo.

(...)

 

Paula Izquierdo

A Falta, Ambar, 2006 

publicado por coquetteintelectual às 18:01

24
Ago 11

 

 

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice

Poesia Reunida, Dom Quixote, 2000

publicado por coquetteintelectual às 19:17

20
Ago 11

 

 

São perto de meio milhar de páginas inéditas que representam um verdadeiro achado para qualquer apreciador de literatura sem transigências e, muito especialmente, um bálsamo para os inúmeros devotos de Julio Cortázar, o escritor total a quem devemos livros como De Todos Os Fogos O Fogo, O Jogo Do Mundo e Volta Ao Mundo Em 80 Dias. A agitação com que o meio editorial acolheu a notícia da existência de textos raros e em primeira mão de Cortázar não deu lugar à decepção, como tantas vezes sucede quando são divulgados textos póstumos de escritores célebres. Entre poemas, cartas, entrevistas imaginárias e contos, o leitor encontrará sempre textos que lhe relembram a todo o instante a importância do autor argentino, capaz de, com uma simples frase, colocar em causa verdades ou visões que dávamos como certas. O que vemos em Papéis Inesperados é, antes de mais, um escritor em diferentes estados de desenvolvimento, razão pela qual nem todos os escritores revelam um interesse similar. Mais do que as décadas que separam alguns dos escritos aqui reunidos, importa destacar o modo inquieto e curioso como Cortázar sempre olhou o mundo, mesmo quando o prestígio crescente e o distanciamento físico face à pátria aconselhariam uma atitude mais cautelosa, algo inconcebível em quem desde cedo se propôs «não aceitar as coisas como dadas».

(...)

 

Texto: Sérgio Almeida

 

Julio Cortázar

Papéis Inesperados, Cavalo De Ferro, 2010

publicado por coquetteintelectual às 17:28

18
Jul 11

 

 

Deste livro de poesia de Helder Moura Pereira, o que permanece como 'impressão' é um tom, uma mono-tonia: um tom que não é bem o de uma melopeia, porque a música que há neste recitativo - e há bastante - é cheia de dissonâncias, refratária à harmonia. E, dizendo isto, estamos a sugerir que, aqui, a língua da poesia é posta à distância: a voz é baixa e sem ênfase, tudo tende para a prosa e para a língua comum. Veja-se, por exemplo, como se fala sem elevações, antes de uma prosaica crueza, de um amor perdido: "Quis pôr um ponto final, mas depois / escrevi um livro inteirinho a falar do tempo / em que éramos mais do que um mais um. / Do teu amor agora nem um cheirinho. / / Não era preciso pedir binóculos / para ver que toda a minha vida / estava feita num molho de bróculos. / E o coração desconcentrado na batida." Esta é a regra: o desencontro, a separação, o desgosto amoroso, a vida desencantada e quase a roçar o niilismo são a matéria exclusiva desta poesia, mas sem que a voz se erga acima da tonalidade baixa e repetitiva. E aqui residem simultaneamente as limitações e os conseguimentos desta poesia. Devemos reparar que muitos poemas pressupõem um interlocutor, criam uma situação dialógica. Mas o diálogo estabelece-se sempre com um ausente. É justo dizer que se trata de uma poesia desencantada em relação a si mesma, por vezes quase irónica, desprovida daquilo a que poderíamos chamar 'efetualidade', incapaz de fazer com que as coisas não sejam o que são. E esta determinação 'coisal' - material, quotidiana, contigente - é o que alimenta o discurso destes poemas, que se prolongam sem inflexões, rente a uma dimensão prosáica, evitando elevações poético-retóricas.

 

António Guerreiro

 

Helder Moura Pereira

Se As Coisas Não Fossem O Que São, Assírio & Alvim, 2010

  

publicado por coquetteintelectual às 18:59

27
Jun 11

 

 

Um ano depois de "Revolutionary Road" (1961), Richard Yates publicou uma colectânea de contos: "Onze Tipos de Solidão", género a que regressaria em 1981 com "Liars in Love". Yates nunca conseguiu repetir o êxito da obra de estreia, mas os romances e contos que escreveu formam um conjunto coerente e equilibrado: seguem uma estética estritamente realista e uma orientação muitas vezes autobiográfica, nascem de uma construção meticulosa de cenas e personagens e revelam um acentuado gosto pelos diálogos banais e os detalhes significativos. Tanto os romances como os contos se circunscrevem a um universo remediado, medíocre, comovente, com variações sobre diferentes 'tipos de solidão', que são também diferentes formas de humilhação.

(...)

Estas histórias americanas da década de 50 opõem sempre a realidade do fracasso à mitologia do sucesso, conceito dominante da América de Einsenhower. Alguns dos protagonistas de "Onze Tipos de Solidão" vêm do tempo da guerra, mantêm um certo orgulho antiquado, uma ideia de integridade, mesmo que possam ser por vezes quase mitómanos. Mas nestes contos aparece sempre qualquer coisa nova, qualquer coisa que muda, que se rompe, que irrompe. E não é só o avanço narrativo que cria esse ambiente de tensão, são os pequenos sinais, a conversa de circunstância, um gesto desajeitado, uma bebedeira loquaz.

(...)

Todos os 11 contos são cuidadosamente carpinteirados, às vezes previsíveis, às vezes tocantes, e sempre genuínos.

 

Texto

Pedro Mexia

 

publicado por coquetteintelectual às 12:32

15
Mai 11

 

 

Envergando um longo vestido leve de cor púrpura, com bainha franjada e em ziguezague, Orla fumava furiosamente, tomava notas abundantes e levantava-se de um salto de vez em quando para rabiscar algum pormenor pertinente numa das inumeras folhas de papel presas nas paredes do gabinete. Providenciando um relato fluido dos acontecimentos da semana anterior, e a esforçar-se ao máximo para os fazer soar cativantes, Millie encontrava-se sentada na chaise-longue e estendia-lhe as canetas de feltro das diversas cores para que Orla, que passava rapidamente por ela, pudesse agarrar na que correspondia a cada personagem.

Bem, um relato fluido, da maioria dos acontecimentos da semana anterior. Millie tinha decidido que Hugh não devia ser incluído em nada daquilo. Contudo, estava a sentir-se um bocadinho culpada, interrogando-se se seria uma atitude traiçoeira.

Afinal, Orla estava a pagar-lhe bastante dinheiro pela versão integral da sua vida e ali estava ela, deixando de fora a pessoa que estava presentemente a perturbá-la.

Não que Hugh estivesse ciente do facto, é claro.

Esperava ela sinceramente.

(...)

De qualquer modo, ela não ia contar a Orla e ponto final. E, decerto, deixar alguém de fora não era enganar. Inventar personagens, inventar acontecimentos, fingir que tinham acontecido coisas quando não tinham - bem, isso é que era enganar. Seria uma atitude realmente enganadora, especialmente quando o que Orla queria era material sobre a vida real.

Por isso não tinha mal, tranquilizou-se Millie.

(...)

 

Jill Mansell

Romance Arriscado, Edições Chá Das Cinco, 2010 

publicado por coquetteintelectual às 12:44

11
Mai 11

 

(...)

Leio de mais. Oiço de mais. Vejo de mais. Estou parado de mais, recebendo mais do que consigo receber.

O céu parece-me demasiado azul. A música é mais triste do que mesmo, os mais tristes, precisaríamos.

Deixem-me sair daqui. A única coisa que sei fazer é sentir. Preciso que me ensinem a enganar-me. Preciso que me ensinem a interromper.

Vivo de mais. Durmo de menos. Acordo para acordar os outros. É como se a luz me acompanhasse. É como se o sol, quando nascesse, viesse propositadamente acordar-me.

Estou sozinho de mais. Nas minhas estrelas não há noite nem amor. Tenho as mãos vazias, viradas para o céu, como se tivessem recebido a lua, como se tivessem ficado encharcadas da tinta da escuridão.

Esta música afastou-me da tua respiração. O teu cabelo levanta e sossega, sossega e levanta, espalhado pelo lençol, como se fosse distribuído pelos meus dedos, que sobem por debaixo dos cobertores, para te conhecer e tocar.

 

Miguel Esteves Cardoso

O Amor É Fodido, Assírio & Alvim, 2001 

publicado por coquetteintelectual às 21:15

01
Mai 11

 

 

Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias
Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo
Adorna-te muito mais do que os anéis

Dá-me um pouco do teu corpo como herança
Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho —
O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus
Dá-me o pão do céu porque morro
Faminto, morro à míngua do alto

Tenho saudades dos caminhos quando me deixas
Em casa. Padeço tanto
Penso tanto
Canto tão alto quando calculo os corpos celestes

Ó infinita ó infinita mãe

 

Daniel Faria

Dos Líquidos, Quasi Edi, 2003

publicado por coquetteintelectual às 12:00

29
Abr 11

 

Chove...

 

Mas isso que importa!,

se estou aqui abrigado nesta porta

a ouvir na chuva que cai do céu

uma melodia de silêncio

que mais ninguém ouve

senão eu?

 

Chove...

 

Mas é o destino

de quem ama

ouvir um violino

até na lama.

 

José Gomes Ferreira

Poesia II 

 

publicado por coquetteintelectual às 17:53

20
Abr 11

 

Tenho usado as palavras para tudo quanto me falta. Sei que, por muita ilusão, me convenci a vida inteira de que aludir às coisas era já um pouco possuí-las e pertencer-lhes, como um modo de sonhar acordado que, para mim, funcionou e me permitiu sempre alguma felicidade.

Os textos , por isso, foram-me reiteradamente úteis, entre serem capazes de inventar as maiores fantasias como de explicarem também a mais evidente realidade. Em certas alturas, os textos foram tudo, tiveram o ofício de se tudo, sobretudo exterminando uma solidão para que me remetiam a timidez e um desajeitado modo de ser. Isso, por si só, haverá sempre de fazer de mim o mais grato dos homens a isto que é ler e escrever. Ficarei sempre grato aos livros.

Sou eminentemente outro após um livro, um que escreva ou um que leia. Procuro nas palavras aquilo que me acrescente, por me faltar, que proponha o que nunca lera, o que nunca pensara e assim me elucide melhor, me suscite a questão e incentive à procura de uma resposta. A aventura dos livros é toda essa. A contínua descoberta da infinitude dos assuntos, da infinitude do pensamento, que deve ensinar-nos a aceitação, essa coisa que por outra palavra muitos chamam de tolerância. A leitura é toda ela um exercício de contacto com o outrora desconhecido e pretende, acima de todas as coisas, a partilha, um reconhecimento de lugar, como um respeito mútuo. A aceitação. Ler é praticar a sociedade. Ler é efectivar a sociedade. É receber o mais depurado dos pensamentos de que alguém foi capaz e ponderar, ainda que tantas vezes ludicamente, como a vida foi, como é, e como poderia ser melhor. Ler é ter passado e fazer futuro.

(...)

 

valter hugo mãe

 

fnac MAG, Número 2, Abril 2011       

publicado por coquetteintelectual às 14:36

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