Coquette - de origem francesa "coquette" significa sedutora, na gíria portuguesa pode significar vaidosa ou graciosa. Intelectual - que pertence ao intelecto ou à inteligência, espiritual.

13
Nov 12

 

 

E, pela primeira vez na vida, Grenouille duvidou do seu nariz e viu-se forçado a requisitar a ajuda dos olhos para acreditar no que cheirava. A bem dizer, esta exigência dos sentidos não foi muito duradoura. Bastou-lhe, de facto, um instante para se certificar e abandonar-se ainda mais impetuosamente às percepções do seu olfacto.

(...)

Grenouille tomou consciência que, sem a posse deste perfume, a sua vida perderia todo o sentido. Precisava conhecê-lo até ao mais ínfimo detalhe, até à última e mais subtil das suas ramificações; não lhe bastaria a recordação complexa que dele pudesse guardar.

Desejava imprimir este perfume apoteótico, como um sinete, nas pregas da sua alma obscura, e em seguida, estudá-lo em pormenor e conformar-se finalmente com as estruturas internas desta fórmula mágica como orientação do seu pensamento, da sua vida e do seu olfacto.

 

Patrick Süskind

O Perfume, Editorial Presença, 2002

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31
Out 12

Tu pensaste que era possível sair sempre impune. Não sabias que trair aqueles que de ti gostavam seria motivo da mais dura punição que se pode ter, a privação, a privação de contacto posterior. O castigo mais duro contudo é sempre atribuído aos outros, aos que são traídos. É um duplo sofrimento. Porque são eles que ainda por lá ficam sem explicação e sem remédio. Alguns nunca superam esses males e os fragmentos de vida que os atormenta são de facto mais dolorosos que os do causador de tal situação. Os teus não são mesmo nada maus. Tiveste sempre grande sorte. Mas não te estava reservado mais nada do que aquilo que tiveste. As coisas são como são, ainda te lembras? Um dia resolveste conduzir enquanto ias acabando com uma garrafa de uísque, bebias uma por dia depois de te separares da mulher com quem vivias, seguias a caminho de casa de outra que contigo queria estar, mas não sabias, estavas longe de imaginar que eu já estava a caminho para te capturar, para te dar descanso. Foi isso que aconteceu quando largaste a garrafa de uísque no banco do lado para atenderes o telefone que estava caído a teus pés. Eu estava ali mesmo, na curva seguinte, à tua espera. Já te lembras de mim nos teus sonhos?

 

João Pedro Martins

Segredos, Fronteira Do Caos, 2009

publicado por coquetteintelectual às 23:56

20
Out 12

Talvez sejas

a breve recordação de um sonho

de que alguém (talvez tu) acordou

(não o sonho, mas a recordação dele),

um sonho parado de que restam

apenas imagens desfeitas, pressentimentos.

Também eu não me lembro,

também eu estou preso nos meus sentidos

 sem poder sair. Se pudesses ouvir,

aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,

animais acossados e perdidos

tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,

desamarraram-me de mim e agora

só me lembro pelo lado de fora.

 

Manuel António Pina

Atropelamento E Fuga, Edições Asa, 2007

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04
Set 12

Nos seus raros dias de folga, não era como as outras raparigas, que comiam para o sítio mais próximo onde vendessem bebidas e tocassem música alta. Não, Edi apanhava boleia com quem pudesse, dirigia-se às zonas rurais inglesas e ali passava o dia. Ou, se tivesse a sorte de se livrar do general, ficava longe durante dias. Passeava, sentava-se debaixo das árvores e observava as vacas a pastar. Na mente de Edi, desejava lembrar-se do motivo por que se combatia, ver o que tentavam preservar.

Por vezes, passava a noite numa herdade. Aprendeu rapidamente a mentir e a dizer que era uma viúva de guerra e que o marido era inglês. As pessoas desconfiavam de uma americana alta e bonita a vaguear sozinha, mas uma viúva que desejava ver o país do falecido marido abria portas e cultivava amizades.

 

Jude Deveraux

Jardim De Alfazema, Quinta Essência, 2010  

publicado por coquetteintelectual às 16:07

15
Ago 12

Escrever sobre um livro como Coração das Trevas é, de facto, tarefa árdua, sobretudo devido ao que poderíamos designar como a dupla dimensão da obra: por um lado, um relato desconcertante de uma viagem ao interior do continente africano, descrita de uma forma vívida e com ingredientes aparentemente comuns a um género muito em voga na época: o romance de aventuras para jovens – assim foi recebida aquando do seu aparecimento por críticos pouco perspicazes; mas por outro lado, temos um texto que comunica ao leitor uma sensação de desconforto e de inquietude, desde as primeiras páginas, devido a uma escrita que, na sua sugestividade, insinua abismos que rasgam inexoravelmente a cena sócio-histórica que nos apresenta e fissuram a própria dimensão psicológica das personagens que nos vai revelando.

 

Joseph Conrad

Coração Das Trevas, Vega, 2008 

 

 

publicado por coquetteintelectual às 21:48

08
Ago 12

Quantas tradições não criaram os antigos em torno das Sereias!

Eram mulheres de corpo e garras de pássaro, almas de mortos, vampiros, demónios do além-túmulo, que alegravam as almas do Hades, ou estavam nos oito círculos rolantes do céu; eram filhas de Melpómene, Terpsícore, Perséfone, Estérope, Portaone, da Terra, de Aqueloo, ou de Fórcis; eram duas, três, quatro, oito; chamavam-se Aglaope, Telxiepia, Lígia, Parténope, Leocósia, Telxíope, Molpo, Aglaófone; eram companheiras de Perséfone, ou de Afrodite, rivais de Orfeu; parecidas com um pássaro índio, tocavam lira, flauta, gaita-de-foles, siringe ou aulo. Essas tradições, algumas das quais muito antigas, não deixam a mínima memória na Odisseia. Para   o “segundo Homero”, é indiferente que as Sereias sejam pássaros, ou demónios da morte. O que lhe interessa é aquilo que cantam: a mesma coisa que fascinava o imperador Tibério e Maurice Blanchot.

As Sereias cantam em linguagem da Íliada: dirigem-se a Ulisses com um mosaico de expressões, que o “segundo Homero” extrai do “primeiro Homero”: “louvado Ulisses, grande glória dos Aqueus”, “sabemos todas as coisas”, “na terra provedora de dons”. Possuem a voz clara e límpida das Musas e das liras, o mesmo “doce canto”. E, acima de tudo, partilham do conhecimento absoluto que as Musa têm do que aconteceu e acontece, e da sua omni-presença nos acontecimentos. O repertório é idêntico: não só os sofrimentos, em Tróia, dos Gregos e dos Troianos, mas a matéria imensa do passado e do presente, em todos os tempos e em todos os espaços, agora e ontem, perto e longe, tudo o que acontece “na terra fértil”. As Sereias também estão a par das aventuras de Ulisses e talvez as cantem, quando ele passa na sua nau; são omiscientes – porque só elas, e não Polifemo ou Circe – reconhecem Ulisses, à chegada. Assim se compreende a tendência que se desenvolveu a partir dos tempos da Odisseia, para identificar as Musas e as Sereias, ou para supor que as Sereias eram filhas das Musas, Melpómene e Terpsícore.

 

Pietro Citati

Ulisses E A Odisseia * A Mente Colorida, Livros Cotovia

publicado por coquetteintelectual às 18:39

13
Jun 12

 

Parece ser ponto assente que, na primeira metade deste século, os desenvolvimentos mais universais do que teria sido a poesia romântica encontraram expressão amadurecida e profunda nas vozes de dois poetas (estrangeiros) de língua inglesa: T. S. Eliot e W. B. Yeats.

A acreditar, aliás, nas convicções do primeiro, o segundo seria o poeta inaugural do nosso tempo e se ambos, efectivamente, se posicionaram na História da Literatura como paradigmas de um romantismo culto e elitista que absorveu, entre outras, a manifestação simbolista e se tornou abrangente, tendendo para uma atitude filosófico-política em busca de uma estética, William Butler Yeats, ao trocar a inspiração pela liberdade, não se limitou a substituir conceitos e acabou por empurrar o romantismo até aos limites do seu primitivo ideário.

Tratou-se, efectivamente, de uma compreensão da modernidade e de uma participação na definição dos seus contornos, a partir de modelos de uma corrente cultural, simultaneamente, irlandesa e universal, de uma educação religiosa que tinha tanto de mítico como de mágico e de uma vivência afectiva que, no plano amoroso, se diluiu durante longo tempo numa sociabilidade que os modelos cultural e religioso informavam completamente.

Contudo, sem uma experiência estritamente poética que aprofundasse conscientemente as virtualidades da linguagem para veicular uma particular visão do tempo e da eternidade, para unificar a espiritualidade e o corpo, para decantar do magma cultural a substância criativa que redime o ser, a sua obra não teria podido conter o sujeito no interior da sua humana condição, deixando-o, provavelmente, à mercê de uma teosofia de contornos nacionalistas ou de uma ideologia religiosa racionalizada pelo protestantismo, ambas desligadas do quotidiano e do real.

(...)

Laureano Silveira

 

W. B. Yeats

Uma Antologia, Assírio & Alvim, 1996

publicado por coquetteintelectual às 19:12

06
Jun 12

A função do cérebro e do sistema nervoso é proteger-nos de sermos esmagados e confundidos por este amontoado de informações em grande parte inúteis e irrelevantes excluindo grande parte do que de outro modo apreenderíamos ou recordaríamos a todo o momento e deixando apenas essa selecção muito reduzida e especial do que poderá ter utilidade prática. De acordo com tal teoria cada um de nós é potencialmente detentor de uma Mente sem Limites (Mind at Large). Porém, na medida em que somos animais, o nosso objectivo é sobreviver a todo o custo. Para tornar a sobrevivência biológica possível a Mente sem Limites tem de ser obrigada a passar através da válvula redutora do cérebro e do sistema nervoso. O que sai do outro lado é uma mísera gota do tipo de consciência que nos vai ajudar a permanecer vivos à superfície deste planeta em concreto.
(...)
Nos antípodas da mente estamos mais ou menos completamente livres da linguagem, fora do sistema de pensamento conceptual.
Consequentemente, a nossa percepção dos objectos visionários possui toda a frescura, toda a intensidade nua das experiências que nunca foram assimiladas a abstracções sem vida. A sua cor (esse traço distintivo da sua qualidade real) irradia um brilho que nos parece preternatural por ser de facto completamente natural - completamente natural no sentido de completamente inadulterado pela linguagem ou pelas noções científicas, filosóficas e utilitárias através das quais normalmente recriamos o mundo real à nossa própria imagem desoladoramente humana.
(...)

 

Aldous Huxley

As Portas Da Percepção - Céu E Inferno, Via Optima, 2005

publicado por coquetteintelectual às 23:54

01
Jun 12

 

Sempre considerava indispensável dar a conhecer às minhas crianças o que esperava delas. Algumas das minhas colegas mostravam-se cépticas quanto a este método, alegando que a personalidade destas crianças era frágil demais para aguentar esta franqueza.

Eu discordava. Embora todas elas tivessem indubitavelmente pequenos egos tristes e amarrotados, nenhum era frágil. Muito pelo contrário. O facto de terem sobrevivido o suficiente para estarem onde estavam depois do que a maioria passara testemunhava a sua força.

No entanto, todas elas levavam vidas caóticas e a natureza dos seus problemas contaminava os outros. Não me parecia ter o direito de aumentar o caos, deixando-as adivinhar o que esperava delas. Achava que estabelecer uma estrutura era um método útil e produtivo com todas as crianças, pois eliminava a imprecisão da nossa relação. Era óbvio que elas já se haviam mostrado incapazes de lidar com os seus próprios limites, sem ajuda, ou nunca terem vindo a parar à minha aula. Mal chegava a altura apropriada, eu iniciava o processo de lhes passar a responsabilidade. Contudo, de início, queria que não existissem dúvidas quanto ao que esperava delas.

 

Torey Hayden

A Criança Que Não Queria Falar, Editorial Presença, 2007 

publicado por coquetteintelectual às 17:25

21
Mai 12

 

A minha mãe era a minha melhor amiga. No entanto, aquele terrível episódio no final da guerra também me trouxe alguém especial, alguém que era só meu. O seu nome era Pistou e ninguém conseguia vê-lo, a não ser eu. Tinha mais ou menos a minha idade. Ao contrário de mim, era moreno, com cabelo eriçado, pele cor de azeitona e olhos castanhos, encovados. Ele ouvia a minha voz interior e eu não tinha de explicar porque ele percebia tudo. Para um rapazinho, era muito perspicaz.

A primeira vez que o vi foi à noite. Desde o final da guerra que eu dormia com a minha mãe. Enroscávamo-nos juntos e ela mantinha-me aconchegado e em segurança. É que eu tinha pesadelos... Sonhos terríveis em que acordava a chorar, com a minha mãe a fazer-me festas e a beijar-me, sonolenta. Não podia explicar a natureza dos meus sonhos, por isso deitava-me a pestanejar na escuridão, receando que, se fechasse os olhos, as imagens voltassem e me roubassem dela. Era nessa altura que o Pistou aparecia. Sentava-se na cama e sorria para mim. O seu rosto era tão luminoso e a sua expressão tão calorosa que soube instantaneamente que íamos ser amigos. Pelo seu olhar de compaixão, soube que ele via os meus sonhos, tal como eu, e que compreendia os meus medos. Enquanto a minha mãe dormia, ficava na cama acordado com Pistou, até já não conseguir lutar contra o cansaço e acabar, também eu, por ser vencido pelo sono.

 

Santa Montefíore

A Virgem Cigana, Bertrand Editora, 2008

publicado por coquetteintelectual às 23:00

18
Mai 12

Dizem-nos insistentemente que "isso" aparece como uma força irresistível, como um dinamismo que altera o mundo e irá transformar os nossos empregos, revolucionar as nossas famílias e educar os nossos filhos. Também irá mudar os métodos agrícolas e médicos tradicionais, assim como modificar os genes dos organismos vivos, talvez mesmo o organismo humano. Confrontados com "isso", não há alternativa, não há outra opção senão aceitar o inevitável e celebrar a sua chegada. A partir de agora, "isso" decidirá o nosso futuro.

O que é entendido como "isso" nestas afirmações é, obviamente, a tecnologia. Com o romper do novo milénio, uma deslumbrante panóplia de livros, relatos jornalísticos, anúncios e programas especiais de televisão proclamam com veemência que a tecnologia tem a chave do destino humano. Quando a tecnologia muda, muda também o mundo.

(...)

 

Dilemas Da Civilização Tecnológica, Imprensa De Ciências Sociais, Instituto De Ciências Sociais Da Universidade De Lisboa, 2003

publicado por coquetteintelectual às 21:06

15
Mai 12

 

Vá lá. Hoje consegui chegar a horas a mais uma reunião para voltar a conferir a ausência do Bruno e os pormenores do Fábio. O agente Pereira e a directora da escola já me esperavam sentados à mesa de reuniões, atravancada no meio do meu gabinete. Não é um gabinete pequeno, o meu. Tem uma rasgada sobre a Rua Nova do Almada que o enche de luz. Cobri as paredes com desenhos feitos pelos alunos das escolas. Tenho dezenas e dezenas de cores atrás da minha secretária. E umas boas colunas de som que me ajudam a pensar. Ligo a aparelhagem mal me sento a trabalhar. Desta vez, fiz severa pontaria para não me atrasar, questiono-me: conseguiram adiantar-se ou serão os ponteiros do meu relógio que continuam a trair-me?

- A malta dos bairros não tem emenda. É que começam de pequeninos, doutora - e, enquanto assim o diz, o agente Pereira, magro e franzino, faz uma cara enjoada, como quem acaba de sair de uma traineira depois de ter andado toda a noite em alto mar. 

As mangas do casaco azul pardacento, de tão compridas, a tocarem-lhe os nós dos dedos. O agente deixa solto no ar um imenso bocejo, após o qual leva uma unha à orelha, escarafunchando o seu interior num alívio prazenteiro. Não dve ser muito claro para ele porque raio teve de voltar ao gabinete da vereadora para depor, pois quem teria por função ou inerência de cargo ouvir os outros depor seria ele. Mas o que mais o confunde é a minha presença constante e a minha vontade demolidora de querer a todo o custo saber do rapaz.

Basta-me consultar a papelada em cima da mesa: nada de novo. Pouco mais se tinha avançado no caso. O comandante desinvestira - «ele há épocas com tanto serviço» - e mandara-o a ele fazer as vezes. Em bom rigor, queria lá saber do miúdo para alguma coisa.

 

Maria João Lopo de Carvalho

Adopta-me, Oficina Do Livro, 2007

publicado por coquetteintelectual às 19:43

31
Mar 12

 

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

 

Hélia Correia

A Terceira Miséria, Relógio d'Água, 2012

publicado por coquetteintelectual às 16:16

21
Mar 12

 

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

 

Jorge de Sena

Antologia Poética de Jorge de Sena, Guimarães Editores, 2010 

publicado por coquetteintelectual às 21:31

19
Mar 12

IMMANUEL KANT

(1724-1804)

 

de CRÍTICA DA FACULDADE DE JULGAR

 

(Do Livro I da Parte I)

 

1. O JUÍZO DO GOSTO É ESTÉTICO

 

Para distinguir se algo é ou não belo, referimos a representação não por meio do entendimento ao objecto para conhecimento, mas por meio da imaginação (talvez ligada com o entendimento) ao sujeito e ao sentimento de prazer ou desprazer deste. O juízo do gosto não é, portanto, um juízo cognitivo, por conseguinte não é lógico mas estético, por tal se entendendo aquilo cujo fundamento de determinação não pode ser senão subjectivo. Mas toda referência das representações, mesmo a das sensações, pode ser objectiva (e então ela significa o real de uma representação empírica); só não a referência ao sentimento do prazer ou desprazer, pela qual nada se designa no objecto, mas na qual o sujeito sente ele próprio como é afectado pela representação.

Apreender, pelo poder do conhecimento, um edifício regular e conforme ao fim (seja numa espécie de representação nítida e confusa) é algo completamente diferente de ter consciência desta representação com a sensação de satisfação. Aqui a representação é completamente referida ao sujeito, e de facto ao sentimento vital deste, sob o nome de sentimento do prazer ou desprazer; o qual alicerça um poder muito particular de distinção e de ajuizamento que em nada contribui para o conhecimento, mas que apenas mantém a representação dada no sujeito face a todo o poder das representações, de que o espírito se torna consciente no sentimento do seu estado. Dadas representações num juízo podem ser empíricas (por conseguintes estéticas); o juízo, porém, que sobre elas é passado é lógico se aquelas no juízo são referidas apenas ao objecto. Mas, pelo contrário, se as representações dadas, ainda que bem racionais, forem referidas num juízo tão-só ao sujeito (ao seu sentimento), nessa medida elas serão sempre estéticas.

 

Álvaro Pina,

O Belo Como Categoria Estética, Livros Horizonte, 1982 

publicado por coquetteintelectual às 17:57

05
Mar 12

IV

A singularidade da obra é idêntica à sua forma de se instalar no contexto da tradição. Esta tradição, ela própria, é algo de completamente vivo, algo de extraordinariamente mutável. Uma estátua antiga de Vénus, por exemplo, situava-se num contexto tradicional diferente, para os Gregos que a consideravam um objecto de culto, e para os clérigos medievais que viam nela um ídolo nefasto. Mas o que ambos enfrentavam da mesma forma, era a sua singularidade, por outras palavras, a sua aura. O culto foi a expressão original da integração da obra de arte no seu contexto tradicional. Como sabemos, as obras de arte mais antigas surgiram ao serviço de um ritual, primeiro mágico e depois religioso. É, pois, de importância decisiva que a forma de existência desta aura, na obra de arte, nunca se desligue completamente da sua função de ritual. Por outras palavras: o valor singular da obra de arte "autêntica" tem o seu fundamento no ritual em que adquiriu o seu valor de uso original e primeiro. Este, independentemente de como seja transmitido, mantém-se reconhecível, mesmo nas formas mais profanas do culto da beleza, enquanto ritual secularizado.

(...)

 

Walter Benjamin

A Obra De Arte Na Era Da Sua Reprodutibilidade Técnica

 

publicado por coquetteintelectual às 19:08

21
Fev 12

Os jogos são em número variadíssimo e de múltiplos tipos: jogos de sociedade, de destreza, de azar, jogos de ar livre, de paciência, de construção, etc. Apesar desta quase infinida diversidade, e com uma notável constância, a palavra «jogo» evoca por igual as ideias de facilidade, risco ou habilidade. Acima de tudo, contribui infalivelmente para uma atmosfera de descontracção ou de diversão. Acalma e diverte. E voca uma actividade sem escolhos mas também sem consequências na vida real. Opõe-se ao carácter sério desta última e, por isso, vê-se qualificada de frívola. Por outro lado, opõe-se ao trabalho, tal como o tempo perdido se opõe ao tempo bem empregue. Com efeito, o jogo não produz nada - nem bens nem obras. É essencialmente estéril. A cada novo lance, e mesmo que estivessem a jogar toda a sua vida, os jogadores voltam a estar a zero e nas mesmas condições do início. Os jogos a dinheiro, apostas ou lotarias, não são excepção. Não criam riqueza, movimentam-na.

(...)

 

Roger Caillois

Os Jogos E Os Homens, Edições Cotovia, 1990

publicado por coquetteintelectual às 15:29

21
Jan 12

 

A poesia, diz-se, é uma questão de palavras. E isto é tão verdadeiro quanto dizer-se que as pinturas são uma questão de tinta e os frescos uma questão de água e têmpera. Está tão longe de ser toda a verdade que se torna um pouco idiota se for pronunciado de modo sentencioso.

A poesia é uma questão de palavras. A poesia é o encadear de palavras num múrmurio, numa rima e numa sucessão de cores. A poesia é uma interacção de imagens. A poesia é a sugestão iridescente de uma ideia. A poesia é todas essas coisas e é ainda algo mais. Com todos esses ingredientes teremos qualquer coisa muito semelhante à poesia, qualquer coisa a que poderíamos aplicar a velha designação romântica de "poesy". E esta, como o bricabraque, estará sempre na moda. Mas a poesia é mais do que isso.

A qualidade essencial da poesia é que ela implica um renovado esforço de atenção e "descobre" um mundo novo dentro do mundo conhecido. O homem, os animais e as flores vivem todos no seio de um caos que lhes é estranho, uma vaga em imparável movimento. Ao caos a que nos habituámos, chamamos cosmos. Ao indizível caos interior de que somos compostos, chamamos consciência, mente e até civilização. Mas ele é, em última instância, um caos, iluminado por visões ou destituído delas, tal como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece.

(...)

O que se passa então com os poetas, nesta conjuntura? Revelam o desejo íntimo da humanidade. O que revelam eles? Mostram o desejo do caos e o medo do caos. O desejo do caos é o sopro da sua poesia. O medo do caos manifesta-se na exibição de formas e técnicas. A poesia é feita de palavras, dizem. E então sopram bolhas de som e imagem que cedo rebentam com o sopro do anseio pelo caos que os invade.

(...)

 

D. H. Lawrence

"Preface" To Chariot Of The Sun, By Harry Crosby

in Phoenix: The Posthumous Papers Of D. H. Lawrence

London: Heinemann, 1936

[Tradução de Isabel Fernandes]    

publicado por coquetteintelectual às 12:42

15
Jan 12

 

 

"A degradação da cultura está intimamente ligada ao capitalismo neoliberal"

Urbano Tavares Rodrigues

 

Esteiro - Parabéns pela edição das Obras Completas, em curso de publicação. Queres falar sobre isso?

U.T.R. - A publicação das minhas Obras Completas foi para muitos leitores uma descoberta; jovens que ignoravam e descobriram afinidades com a minha escrita e com os meus ideais. Além disso, os prefácios de Eugénio Lisboa e de Manuel Gusmão são muito ricos e esclarecedores o que contribui para iluminar essas obras antigas que agora surgem renovadas.

Esteiro - Como vês a literatura portuguesa actual e o seu papel na nossa sociedade?

U.T.R. - A literatura portuguesa actual apresenta escritores com preocupações sociais muito fortes, como, por exemplo, José Luís Peixoto no seu último romance Livro, valter hugo mãe, especialmente em O Apocalipse dos Trabalhadores, o Rui Cardoso Martins no seu romance Deixem Passar o Homem Invisível. Mesmo noutros autores como, por exemplo, João Tordo, há textos magníficos de solidariedade social e isso é extensivo a Dulce Maria Cardoso ou a Patrícia Reis. A degradação da cultura em favor dos subprodutos alienantes está intimamente ligada ao capitalismo neoliberal que vive o seu crepúsculo com grande agressividade. É claro que a discussão teórica destes problemas tem sido por vezes debatida quer em artigos da Vértice quer nas tão importantes reuniões de intelectuais progressistas, em Serpa, organizadas pelo Miguel Urbano Rodrigues, com o título genérico "Socialismo ou Barbárie".

Esteiro - Qual é para ti a grande contradição do nosso tempo e como achas que se resolverá?

U.T.R. - A globalização capitalista que estendeu os seus tentáculos até à China, está fortemente ameaçada de um estoiro monumental, o que abriria caminho ao surto de democracias socialistas com um enorme pendor ecológico e características possivelmente diferentes neste ou naquele espaço da Europa e da América Latina. É difícil prever o futuro, mas estas sociedades de homens livres e de tendência igualitária correspondem a um fundo anseio da humanidade.

 

Entrevista de

Leonor Freitas,

em 6 de Janeiro de 2011

 

publicado por coquetteintelectual às 18:14

13
Jan 12

 

 

Com a esperança de governar a casa já elase via a comprar livros e coisas para as paredes. Havia nas papelarias da Baixa umas estapas que cobiçava tanto!

Mas vem um dia... tinha ela ido para o Liceu; um dia em que, de volta a casa, a encontrou virada do direito para o avesso. Que podia ter acontecido? A criada a choramingar, a casa revolvida; e a madrinha?

A rapariga, que era nova e relaça, e costumava deitar pingos de água nas cartas que mandava ao namorado, nem lhe respondeu.

- A madrinha? - perguntava ela, espantada.

- Aquela senhora...

- Qual senhora?

- Aquela, mais a senhora Ana, remexeram aí tudo e, e...

Em resumo tinham posto a casa a saque e raptado a dona Felismina.

A pobre senhora estava de cama, porque continuava doente, mas assim mesmo a tinham arrebatado, como a um fardo precioso.

O que ainda havia de valor em casa também desapareceu: jóias, os restos de um faqueiro de prata, loiça antiga, os cobertores, os lençóis de linho, alguns móveis... Por esquecimento, teriam ficado sujas? deixaram duas colheres de prata, que ainda conserva. Com elas sempre come.

 

Irene Lisboa

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publicado por coquetteintelectual às 17:35

27
Dez 11

 

 

Acredito que tudo o que podemos oferecer ao Céu é a honestidade humana. Quando chegamos aos portões de S. Pedro, quero eu dizer. Deve ser como sal para reinos sem sal, especiarias para os países sombrios do Norte. Uns poucos gramas na bagagem da alma que oferecemos para tentar entrar. Não sei como é a honestidade celestial. Mas digo isto para me preparar para a minha tarefa.

Pensei em tempos que a beleza era o meu bem mais precioso. Talvez assim tivesse sido no Céu. Mas não o foi nestas paragens terrenas.

Estar só, mas ser tomada por uma alegria imensa, de vez em quando, como julgo que me acontece, é na verdade um bem precioso. Aqui sentada, diante desta mesa marcada e riscada por uma dúzia de gerações de reclusos, pacientes, anjos, o que quer que sejamos, tenho de lhe descrever esta sensação de uma qualquer essência áurea que me invade, bem no sangue. Não é contentamento, mas uma oração tão feroz e perigosa como um rugido de leão.

Conto-lhe isto a si, a si.

Caro leitor. Deus o abençoe, Deus o abençoe.

 

Sebastian Barry

Escritos Secretos, Bertrand Editora, 2009   

publicado por coquetteintelectual às 21:00

25
Dez 11

 

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

 

David Mourão Ferreira

 

publicado por coquetteintelectual às 22:13

10
Dez 11

 

 

Olha para o relógio que está em cima da mesa. Passaram quase duas horas. Ainda se sente vigorosa, embora saiba que no dia seguinte pode ler o que escreveu e achá-lo oco, empolado. O livro que temos na nossa imaginação é sempre melhor do que aquele que conseguimos passar para o papel. Bebe um gole de café frio e resolve ler o que escreveu até então.

Parece-lhe bastante bom, algumas passagens parecem-lhe mesmo muito boas. Tem esperanças excessivas, evidentemente - quer que este seja o seu melhor livro, aquele que corresponda finalmente às suas expectativas. Mas pode um único dia na vida de uma mulher comum transformar-se no suficiente para um romance?

Virgina bate ao de leve nos lábios com o polegar. Clarissa Dalloway morrerá, disso tem certeza, embora nesta fase inicial seja impossível dizer como ou sequer, precisamente, porquê. Está no entanto convencida de que ela porá fim à sua vida. Sim, ela fará isso.

Virginia pousa a caneta. Gostaria de escrever todo o dia, de encher trinta páginas em lugar de três, mas passadas as primeiras horas alguma coisa vacila dentro dela, e receia, se insistir para além dos seus limites, prejudicar todo o projecto. O deixe transviar-se para um reino de incoerência do qual talvez nunca possa regressar. Ao mesmo tempo, detesta passar qualquer das suas horas límpidas a fazer outra coisa que não seja escrever.

(...)

 

Michael Cunningham

As Horas, Gradiva, 2003

publicado por coquetteintelectual às 16:26

08
Dez 11

Assim conversando, entraram o bastante pela floresta dentro para ficarem fora da observação de qualquer viandante casual que seguisse pelo atalho. Aqui se sentaram num monte alto de musgo, que, em qualquer altura do século anterior, havia sido um pinheiro enorme, com as raízes e o tronco na sombra, e a cabeça erguida alto no ar superior. O lugar onde se tinham sentado era um valezinho, com uma pequena encosta, coberta de flores mortas, subindo de cada lado, e um riacho correndo pelo meio, por sobre um leito de folhas caídas e afogadas. As árvores, que se curvavam sobre ele, tinham de vez em quando deixado cair grandes ramos, que se atravessavam na corrente e obrigavam a formar redemoinhos e profundezas escuras em alguns pontos, enquanto, no seu curso mais vivo e rápido, se mostrava um leito de pedrinhas e de areia clara e brilhante. Deixando os olhos seguir o curso do riacho, vieram a luz reflectida da sua água até certa altura pela floresta dentro, mas daí a pouco todo ele se sumia na confusão dos troncos e dos arbustos, interrompidos aqui e ali por um grande rochedo coberto de líquenes cinzentos. Todas essas grandes árvores e esses pedregulhos de granito pareciam empenhados em fazer mistério do curso daquele ribeirinho; receando talvez que, com sua conversa constante, contasse segredos do coração da velha floresta onde corria, ou espelhasse as suas revelações na superfície lisa de uma lagoa minúscula.

Continuamente, em verdade, ao seguir os seu curso, o riacho mantinha uma voz leve, boa, quieta e afogante, porém melancólica, como a voz de uma criança que passasse a infância sem brincar, e não soubesse como ser alegre entre companheiros tristes e sucessos sombrios.

(...)

 

Nathaniel Hawthorne

A Letra Encarnada, Publicações Dom Quixote, Tradução de Fernando Pessoa, 1988  

publicado por coquetteintelectual às 19:01

04
Dez 11

 

Eu tivera uma infância nos confins da piedade, e isto por simples gosto da emoção, pois nada nem ninguém à minha volta a tal me predispunha: os meus pais não praticavam, os meus professores eram da escola laica, não se enxergava, ao redor, nenhuma avozinha de rosário na mão, e, se as minhas tias paternas, que, na época da prosperidade, estavam sempre metidas lá em casa para pedinchar um serviço ou dinheiro do irmão, não perdiam nenhuma missa, nenhuma procissão, o certo é que elas não faziam proselitismo. À saída da escola, apesar da fome canina que me atazanava à hora do lanche, acontecia-me frequentemente subir ao adro da basílica e penetrar sob as abóbadas de sombra e de humidade ainda mais altas que o céu lá fora. Ao domingo, não contente por ter assistido à missa cantada, abandonando a interminável partida de futebol na praça dos Plátanos, onde uma velha late de leite concentrado, embrulhada em trapos, servia de bola aos jogadores renovados pela passagem dos bandos de bairro, ia numa corrida assistir ao ofício das vésperas.

(...)

 

Angelo Rinaldi

Os Dias Acabam Sempre Por Voltar, Bertrand Editora, 1995    

publicado por coquetteintelectual às 14:57

02
Dez 11

 

 

Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                                                        perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.

 

Ana Hatherly

O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003

publicado por coquetteintelectual às 15:38

24
Nov 11

 

Antes que a pálida madrugada deixasse ver as mostruosas serpentes de fumo espraiando-se sobre Coketown, iluminaram-se os palácios de fadas. Um barulho de cardas na calçada, um tintilar rápido de sinetas, e todos os elefantes melancolicamente loucos, polidos e oleados para a melancolia diária, recomeçavam a sua tarefa.

(...)

Não receiem, boa gente de espírito inquieto, que a Arte relegue a natureza para o esquecimento. Ponham, seja onde for, a obra de Deus e a obra do homem, lado a lado, e a primeira, mesmo que esteja nas mãos de gente de pouca importância, ganhará em dignidade pela comparação.

Tantas centenas de operários nesta fábrica, tantas centenas de cavalos-vapor de energia. Sabe-se que até ao mais pequeno pormenor, aquilo que a máquina pode fazer; mas todos os calculadores da Dívida Pública são incapazes de me dizer qual a capacidade, para o bem ou para o mal, para o amor ou para o ódio, para o patriotismo ou para o descontentamento, para a decomposição da virtude em vício ou para a inversa, que tem, num dado momento, a alma de qualquer daqueles homens de rostos calmos e acções reguladas. Não há qualquer mistério na máquina e no mais mesquinho dentre eles há um mistério jamais decifrável.

E se guardássemos a matemática para outros objectos materiais e governássemos por diferentes meios essas terríveis quantidades desconhecidas!

(...)

 

Charles Dickens

Tempos Difíceis, Romano Torres, 3.ª Edição

    

publicado por coquetteintelectual às 21:49

02
Nov 11

 

O homem que tinha morrido andou sem destino nesse dia de sol.

E a dada altura, parado ao lado da estrada para ver uma caravana que se dirigia à cidade, disse consigo próprio:

- Como é estranho este mundo dos sentidos, ao mesmo tempo sórdido e puro! Exactamente como eu. Apesar de estar fora dele! É variada a efervescência da vida. Que direito o meu ter querido vê-la sempre com um fervilhar idêntico? Como lamento as pregações que lhes fiz! Muito mais depressa um sermão estala como a lama, ou fontes secam, do que um salmo ou cântico. Enganei-me. Compreendo que me tenham executado por lhes ter feito pregações. Ou antes: se virmos bem as coisas, não conseguiram executar-me porque estou ressuscitado na minha própria solidão e herdei a terra, uma vez que já não ando nela a reinvidicar. Vou estar sozinho no turbilhão de todas as coisas, sobretudo, acima de tudo, vou estar sozinho para sempre. (...) E uma destas noites eu próprio talvez encontre uma mulher que me desperte o corpo ressuscitado sabendo, apesar disso, preservar a minha solidão. Porque o corpo do meu desejo está morto, e em mim não há lugar que possa ser tocado. Mas o que sei disto, afinal? Ao cabo e ao resto, tudo é vida. (...) Tenho de chegar depressa àquela aldeia que ali vejo na colina à minha frente; sinto-me cansado, fraco, e com vontade de fechar os olhos ao que me rodeia.

 

D. H. Lawrence

O Homem Que Morreu, Assírio & Alvim, 2004

publicado por coquetteintelectual às 23:12

15
Out 11

 

Porquê escrever este livro?

A oportunidade surgiu de um convite do jornalista José Vegar, que me fez essa proposta de escrever um livro acerca da 'Geração à Rasca', curiosamente, no dia 12 de Março, aquando da manifestação. O porquê, foi a História que o ditou. Era o momento certo, e deixando passar esta época achámos que ficaria fora de tempo.

O que é que caracteriza a 'Geração à Rasca'?

É difícil definir, e eu própria fui confrontada com isso. Falei com alguns especialistas precisamente para tentar responder a essa questão e cheguei à conclusão de que é um fenómeno que ainda está a desenvolver-se e a assumir-se. Não tem balizas etárias nem um perfil fechado, abrange várias camadas da sociedade. É muito complexo e, como disse Machado Pais [sociólogo], «esta é uma geração que nasce do rumo da História». É algo que surgiu porque o contexto social assim o ditou. É uma geração que está a encarar um contexto em que não cabem realmente os objectivos, os sonhos e as metas que se tinham delineado há uns anos e que está a tentar reinventar esse caminho que parecia tão linear. É verdade que as oportunidades também se criam, mas eu fui confrontada com muitos casos de jovens que não pararam de tentar implementar o seu negócio exactamente para fugir a essas propostas. Mas será que o País sabe receber esses projectos? Também é uma questão que se coloca e muitos dos jovens que tentaram fazê-lo não dizem que sim.

(...)

O que é que esta geração pode fazer, na tua opinião, para construir um futuro com mais sucesso?

Em primeiro lugar, é não baixar os braços. O pessimismo por vezes é quase inevitável, mas não é solução. Mais vale tentar aproveitar as oportunidades porque, num cenário de crise, elas podem surgir, mesmo que não sejam logo na área de formação que sempre desejámos. Não somos um país com falta de recursos por explorar, portanto, é tentar investir na inovação, na criatividade. É claro que passa também por decisões superiores, mil e uma políticas que poderiam ser revistas. Do ponto de vista das instituições de ensino seria desejável haver uma maior aproximação ao mercado de trabalho. Mas não podemos ver só culpados, todos temos uma responsabilidade, todos ainda temos algo nas mãos para fazer, e isso é positivo.

Andreia Arenga

Mundo Universitário, 24 De Outubro

 

Ana Filipa Pinto

Geração À Rasca - Retrato De Uma Geração, Editorial Planeta, 2011 

publicado por coquetteintelectual às 12:00

04
Out 11

 

Os acontecimentos projectaram a sua sombra algum tempo antes. Durante toda esta primavera e verão, quando eu passava no passeio da rua, um gato ruivo de aspecto miserável saia debaixo dum carro ou dum jardim, e ficava a olhar intensamente para mim, não querendo ser ignorado. Queria alguma coisa, mas o quê? Gatos nos passeios, gatos nos muros do jardins, ou aparecendo das portas, esticam-se e abanam as caudas, cumprimentam, acompanham-nos durante alguns passos. Querem companhia ou, se foram deixados na rua por donos sem coração, frequentemente aí ficando todo o dia ou toda a noite, podem socorro com um miado estridente, insistente e implorante, que significa que estão com fome, ou sede ou frio. Um gato enrolando-se nas nossas pernas numa esquina, pode estar a pensar se lhe será possível trocar uma casa pobre por uma melhor. Mas este gato não miava, apenas olhava, um olhar pensativo, directo, dos olhos amarelo-cinzento. Depois começou a seguir-me ao longo do passeio, hesitando, olhando para mim. Apresentava-se-me quando eu entrava e quando saía, e pesava-me na consciência. Teria fome? Trouxe-lhe alguma comida, que pus debaixo dum carro, e ele comeu um pouco, mas deixou o resto. No entanto, estava necessitado, desesperado, via-se. Teria ele uma casa na nossa rua, e seria uma má casa? Parecia estar a maior parte das vezes perto duma casa um pouco abaixo da nossa, e, uma vez quando uma mulher velha entrou ele entrou também. Portanto tinha casa. Mas continuou a seguir-me até ao nosso portão e uma vez, quando o passeio se encheu com uma onda de ruidosas crianças da escola, ele refugiou-se no nosso pequeno jardim da frente, aterrado, olhando-me enquanto eu entrava em casa.  

 

Doris Lessing

Gatos E Mais Gatos, Cotovia, 1995

publicado por coquetteintelectual às 19:54

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